25 junho 2013

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Professora de dança do ventre? Já????


Quem acompanha o blog a bastante tempo, sabe que frequentei uma igreja evangélica por mais de 10 anos. Quando eu tinha 15 anos, estudava a Bíblia PRA CARAMBA MESMO, lia tudo o que passava na minha frente, sempre respondia tudo primeiro, então, eu estava plenamente convencida de que poderia assumir uma liderança na igreja, ou dar aulas na escola dominical, ou, pelo menos, ser líder do louvor. Qualquer posição de destaque. Eu me sentia pronta e preparada, e queria que todos na igreja me enxergassem da mesma forma que eu me enxergava. Então, eu fui conversar com um seminarista que trabalhava na minha igreja naquela época, e ele, com toda a paciência do mundo "me colocou no meu lugar", me explicou que eu era muito jovem, que assumir uma posição de liderança diante da igreja não tinha nenhum glamour, pelo contrário. Era uma honra grande, mas um fardo também, porque eu teria que dar exemplo, ter uma vida de santidade, e que minha motivação estava completamente errada.



Antes que o preconceito contra os evangélicos grite dentro do seu peito e você feche a página, quero explicar que essa é uma história da minha vida que vou usar para exemplificar o assunto que quero abordar hoje. Nada de discutir religião, OK????

Se tem um assunto que já foi largamente discutido na bellynet foi, justamente, sobre a diferença de uma bailarina amadora de uma bailarina profissional, o que diferencia uma categoria da outra, qual a importância do rótulo para ambos os lados, e quais as possíveis consequências de se "cruzar a linha" antes da hora. 


Lulu Brasil aborda o assunto de uma forma muito feliz, e do alto de seus 30 anos de carreira nos dá uma verdadeira aula. Leitura absolutamente obrigatória:


Deixando o lado performático do bailarino de lado, uma curiosidade genuína que tenho, é o que motiva alguém a almejar ser professor de dança. Mais ainda, o que motiva alguém a decidir que a partir de determinado momento ela está apta a mudar de lado e partilhar conhecimento, ao invés de absorvê-lo. 

Observando o cenário de Osasco, por exemplo, percebo que a motivação para o ensino parte, quase que única e exclusivamente, do desejo de validar o momento da transição do rótulo. Se ontem eu era uma aluna, bailarina amadora, "aspirante", hoje, ao ensinar qualquer pessoa a fazer um básico egípcio, eu me torno profissional, professora de dança do ventre, coreógrafa. A coisa acontece tão rápido, que não dá nem tempo dessa nova "professora" (e leia-se dessa forma mesmo - professora entre aspas) refletir sobre suas novas responsabilidades enquanto facilitadora da dança, educadora e coach. 

Aliás, um fenômeno que acontece na dança do ventre é que essas preocupações, tão sérias, tão pesadas, ao invés de "atormentar" o profissional (ou aspirante a) de uma forma positiva, para que ele busque conhecimento, experiência, novas formas de ensino e didática, o afastam de suas verdadeiras responsabilidades enquanto educador. E, a partir daí, outras coisas mais fúteis e efêmeras como figurinos, ensaios fotográficos e concursos assumem o lugar prioritário. 

Daí você me pergunta: o que está faltando? Está faltando a figura do seminarista para explicar que:

Assumir uma sala de aula de dança do ventre não tem nenhum glamour, pelo contrário. 


Ao trocar de lugar com a professora, é necessário desviar o olhar da sua imagem para focar no outro - e isso demanda um desprendimento com o qual não estamos acostumadas. Daqui para a frente, além de transmitir o conhecimento, você terá que ter sensibilidade suficiente para entender as necessidades do outro, de cada aluna individualmente, a forma que cada aluna tem de receber e decodificar a informação que você está passando, para que todas cheguem a um resultado comum: a execução perfeita do movimento. 

De semelhante modo, você terá que lidar com as pequenas frustrações que acontecem em sala de aula a cada tentativa de executar o movimento sem sucesso, e transformá-las em motivação e incentivo. Mesmo depois de tentar mil formas diferentes de didática do movimento para facilitar a execução da aluna. Mesmo depois da 65426685236852365523635423 tentativa. 

Por fim, a parte nada glamourosa de preparar as aulas, selecionar músicas, gravar CDs, realizar avaliações constantes de desempenho de cada aluna, e mantê-las organizadas de forma que possam ser utilizadas para desenvolvimento de aulas que realmente venham a atender às necessidades da turma, mas também falem individualmente a cada aluna. 

Isso tudo sem falar no seu desenvolvimento pessoal como bailarina, que deverá "tomar esteróides" a partir do momento em que você admite para si o rótulo de professora de dança do ventre. Pense naquele grupo super fraquinho que você assistiu em um festival, e alguém comentou com você "aquela do meio é a professora", e você, automaticamente, pensou "nossa, ela dança assim, e se acha professora?"  Inverta esse pensamento: você não vai querer que os familiares de suas alunas, ou suas alunas, ou suas companheiras de mercado pensem assim de você, certo? Então, rabo de cavalo, legging, blusinha, e vamos conseguir mais algumas bolhas no pé. Yalla!


É uma honra grande, mas um fardo também, porque você terá que dar exemplo. 


Não há absolutamente nada neste mundo que substitua a sensação de satisfação que enche o peito de uma professora quando ela observa uma aluna "vencer" o movimento, vencer a limitação corporal. É absolutamente mágico. Não consigo descrever em palavras, e, acredito que qualquer pessoa que ame a dança do ventre como eu amo, pode ser professora a trocentos anos, ter trocentas alunas, e ainda assim se sentirá tocada neste momento. 

Quando eu digo que é um "fardo" não pense no sentido perjorativo da palavra. Mas a carga que recai sobre a "verdadeira educadora"  de dança não é leve. Todos os itens citados no tópico anterior demandam uma coisa primordial: investimento de TEMPO. 

Minha gerente costuma dizer que ela tem muito de tudo, mas tem tempo de menos. Essa é a nossa realidade: nós temos tempo de menos. No entanto, quando você escolhe ser professora de dança, esse pouco tempo que você tem acaba sendo direcionado para o estudo, para a preparação de aulas, para a organização de sua rotina enquanto professora. É inevitável que a dança se "espalhe" em sua rotina, mesmo que você exerça outra atividade (como é o caso de muitas professoras), e é preciso muito jogo de cintura para não preterir atividades importantes do seu dia a dia, como dar atenção para sua mãe, ou estar com o marido, ou brincar com o filho... Eu JURO que não estou exagerando, é o que de fato acontece. 

Sua motivação pode estar completamente errada. 



Se você perguntar a si mesma por que quer ser professora de dança do ventre, e a resposta demorar mais do que 2 segundos para surgir em seu coração, creio que você deve fazer uma releitura de todos os motivos que a levaram à conclusão de que estaria preparada para ser professora.

Porque não é simples.

Não é "" uma etapa para se profissionalizar.

Não faz parte de um processo desestruturado, onde a docência pode anteceder a formação.

No mundo secular, se você quer ser professora, você precisa de uma formação em pedagogia para poder alfabetizar uma criança (ou seja, ensinar o BÁSICO), e para ensinar o intermediário você precisa de uma formação específica com licenciatura. Ou seja, para ensinar o básico, você precisa de 9 anos de estruturação, mais 3 anos de ensino médio, mais dois anos de graduação. 14 anos de estudo.

Se você for convidado HOJE no seu trabalho para dar uma palestra sobre qualquer assunto que domine, tenho certeza que irá tremer nas bases, mesmo executando o trabalho a anos - é muita responsabilidade transmitir conhecimento.

Por que, então, é possível se sentir motivada a trocar de lugar com a professora de dança do ventre ainda no processo de formação? Para adicionar um título de "bailarina, professora e coreógrafa" em seu currículo? Somente para isso? Ou porque você está apaixonada pela dança de tal forma que não consegue conter tanta paixão dentro de si: quer espalhar a "virtude da dança pelos confins da terra"?

Cuidado. É preciso amadurecer até o sentimento pela dança, para que, de paixão, que só devasta e destrói, ele se transforme em amor:

"O amor é sofredor, é benigno;
o amor não é invejoso; 
o amor não trata com leviandade, 
não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, 
não busca os seus interesses, 
não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça,
mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".
1 Coríntios 13:4-7

Que todas encontremos esse amor tão longânimo pela dança, que "tudo sofre, tudo crê, tudo ESPERA, tudo suporta".

Beijos e boa semana de MOSAICO BRASIL EGITO para todas!!!

Gostou? Não gostou? Concorda? Discorda? Fala pra mim guriaaaaaaaaaaaaa!!!



9 comentários:

  1. Acho que ser professora tem mais a ver com vocação, jeito pra dar aulas do que com tempo de dança.
    Já tive aula com bailarina que tem mais de dez anos que não sabia como passar (ou não queria) o conhecimento que tinha e também já tive aulas com bailarinas que tinham poucos anos, também eram alunas no estágio avançado e eram super empolgadas, sabiam passar muito bem e sem enrolação o que já dominavam.

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  2. Oi Vera tudo bem? Tenho acompanho seu blog já a algum tempo e posso dizer que foi ele quem me incentivou a estudar ainda mais.
    Vou falar sobre o tópico do post de hoje, até porque estou nessa fase de transição. Comecei a dar aulas de dança esse ano. Pra falar a verdade qdo comecei achei que ainda não estava assim tão preparada. As primeiras semanas foram intensas. Mas acho que comecei no tempo certo. Háum ano atrás minha mãe me encheu a paciência querendo que eu desse aulas pois 'precisava ganhar dinheiro com dança e não gastar' mas em resposta eu dizia que ainda não estava pronta. Mas foi no mesmo período que tripliquei meu estudo de dança árabe. Antes disso eu não sabia nem diferenciar os tipos de música, fui atrás, fiz vários cursos, pesquisei, investi. E hoje me sinto melhor preparada. O que me ajuda é a minha formação em Educação Física, adquirida antes da dança do ventre. Além de dar aulas de inglês há 3 anos o que me preparou nessa questão de manter os alunos motivados. Mas de maneira alguma parei de estudar e falo isso pras minhas alunas que ainda tenho muito a estudar. pois já vi gente que ficou estagnada no conhecimento pq já dava aula há muitos anos.

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  3. Realmente a Vera tem toda razão, passar a ser professora é uma grande responsabilidade, além de você ensinar a dançar você precisa saber "cuidar" de cada aluna, e também precisa saber se posicionar diante deste papel, esse é o ponto mais difícil. Eu mesma passei por esses momentos de dúvida de ser ou não ser professora, pensei, sentei estudei mil possibilidades, e quando tomei coragem resolvi estudar mesmo, foi uma entrega, foi uma mudança radical, teve quem me apoiou e teve quem não, mas quando entrei na sala de aula pela primeira vez pude perceber quão grande era meu talento de ensinar, hoje posso afirmar que ser professora é uma das experiências mais maravilhosas que já passei na minha vida.

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    1. Eu sou prova viva, citei vc no meu comentário, pois quando tive a oportunidade de ter aula com vc, e na época vc não tinha anos de dança, como muitos pensam que a professora precisa ter, não desmerecendo a experiência de muitas, mas eu via uma pessoa disposta, que estudava e que queria dar aula, estava interessada, que fazia de cada aluna um ser único, e isso é muito importane na relação aluno e professor, o aluno precisa se sentir estimulado e o retorno disso é incrível. Enfim, com certeza fez a diferença no meu aprendizado, mesmo uqe eu pouco tempo.

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  4. Quando eu decidi dar aulas em 2008, foi exatamente como vc disse: eu tinha acabado de tirar meu DRT, logo, eu viraria professora. Hoje vejo que não. DRT é permissão para trabalhar como BAILARINA. Obviamente, essa minha decisão foi tomada quase inconscientemente baseada apenas no que é culturalmente normal.

    Não recomendo essa decisão "automática", até porque não é. Eu ainda tive a oportunidade de fazer estágio por 2 anos antes de tirar o DRT, que considero o ideal e super recomendo. E mesmo assim, você erra muito no início e se sente insegura...

    Mas acho que faz parte, assim como qualquer outra profissão.

    Não acho que o problema seja a "automatização" mas sim a vaidade e a falta de orientação e verdade da professora.

    Beijos

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  5. Oi Verinha, tudo bem? Não sei se lembra, mas te tietei na votação do E-ventre, enfim, adorei o texto e minha reflexão sobre ser professor, vai além do amor à dança, eu mesma já dei aula de dança para iniciantes e confesso que além do amor que tenho pela dança essa oportunidade me surgiu num momento em que eu estava sem trabalhar, ou seja, eu tb precisava daquilo, porém como eu amo dançar e na época eu fazia aula de balé, dança do ventre, yoga e ensaios com o grupo eu me senti preparada para o começar, além disso eu tb dou licenciada, portanto isso me deu mais segurança, porém quando eu diminui minhas atividades por motivos financeiros novamente, não me vi mais no direito de continuar dando aulas, achei que da minha parte não seria legal, pois acho injusto dar aula e não fazer aulas e não fazer reciclagens, não estudar, eu sei que temos material disponívels na internet e etc, mas estou falando de aula física, das trocas de experiencias, dos nossos erros e dos erros dos outros. Realmente não há nada que pague um aluno seu observando e se esforçando para tal movimento, tentando aprender, trazendo dúvidas e te proporcionando um maior aprendizado, não acredito em transmissão de conhecimento, acredito na troca, na construção com cada indivíduo, com cada difculdade e como a gente tira e faz daquele momento o melhor, impossível um professor não aprender com cada aluno que tem, e acho que esse é o combustível.

    Eu também não acho que só o tempo de estudo faz o professor, mas sim o quanto ele acrescentou em seus estudos, quais métodos e objetivos ele tem em cada aula, eu tive uma professora mto querida, que hoje eu torço e adimiro a cada evento que a encontro, Aisha Samiyah quando eu tive aula com ela ela não tinha anos de dança, porém ela tinha vontade, ela estudava, se esforçava, fazia valer a pena acordar sábado cedo, logo anos de dança não querem dizer que vc está preparado, mas sim o quanto vc está disponível, o esforço aplicado e a sua habilidade para dar aula.

    Falaria horas desse assunto, afinal já discuti isso diversas vezes, mas preferi relatar minha vivência e apontar esse tópico financeiro tb, que muitas vezes não é o melhor caminho para se tornar professora.

    Beijos e até o próximo!!

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  6. Verita linda.
    Como conversamos em nossas primeiras trocas de email, eu realmente acredito que nem toda bailarina nasceu para dar aulas. São duas profissões distintas, ser dançarina e ser professora!
    E sinceramente, as melhores professoras que conheço não são grandes bailarinas, deve ser pelo fato do olhar de professora de estar sempre atento ao crescimento do outro, falar mais alto (???)
    Enfim, é mto fácil virar professora para alavancar a carreira, ser reconhecida e ter mais público. Mas aí na hora que o grupo de alunas vai se apresentando, vc não identifica ngm, e sim um monte de gente tentando dançar igual à professora, com trejeitos que viram caricatos, poluindo a dança e sem sentido...
    É fácil, joga no youtube e procura os vídeos de coreografias avançados de algumas bailarinas professoras e batata, são sequências truncadas de movimentos lindos, mas que combinam comente com ela.
    E a percepção do que é necessário para o desenvolvimento de cada aluna em si morre nesta hora.
    Houve uma época, há uns 10 anos atrás, que mts bailarinas velhas de guerra começaram a dar os cursos de formação para professora de DV. Uma pena que não foi pra frente, q não houve continuidade. Pelo menos naqueles cursos, independente da linha de pensamento de cada professora, existiam aulas de tudo, desde história geral da dança, história de DV, anatomia, fisiologia, noções musicais, didática etc etc etc.
    Bjs
    Van

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  7. Finalmente.. depois de um tempo já lendo seu blog, vou postar um comentário!rs
    Eu concordo com todo texto, principalmente quando cita que ser professora significa uma responsabilidade tamanha, em vários aspectos...
    Na minha opinião, todo mundo começa de algum lugar e de algum jeito, claro que hoje o mercado está completamente saturado e infelizmente existem muitas pessoas despreparadas lecionando exatamente por nao deixarem que td ocorra no seu tempo, acredito eu tbm..
    Porém quando alguma bailarina\aluna leva a dança como algo à sério pode ser natural que ela pense em algum dia se tornar profissional e dar aulas(também acredito na questão de vocação), o tempo de estudo e desenvolvimento de pessoa para pessoa varia bastante, então também não podemos julgar por essa questão de "nossa mas com 4 anos de dança ela já dá aulas?" Cada bailarina possui uma rotina de estudos, tempo de preparo, instruções/incentivo de alguma profissional e etc. A profissional e professora na maioria das vezes vai vir de uma bailarina amadora, que não vai ter uma bagagem e experiência grande. Todo mundo inicia de algum ponto.
    Ter amor por dar aulas, seriedade com essa função e estudos constantes é um conjunto para nascer uma grande professora acredito eu...
    Comecei com uma oportunidade que tive através da minha professora, que me deu vários toques, preparações, aulas e principalmente incentivo, a minha insegurança ainda me assombra, e vem a pergunta que sempre nos fazemos.. será que estou preparada?
    Tento compensar essa insegurança estudando de tudo um pouco.. didática, movimentos, bailarinas. Além disso, a melhor coisa pra se aprender a dar aula, é dando aulas..já dizia minha professora.. vamos nos aperfeiçoando, pegando prática, vendo a melhor didática e com o passar do tempo vamos nos saindo cada vez melhor.
    O amor nos move a fazer qualquer coisa, se tivermos amor, vamos conseguir transmitir isso às alunas, aos nossos estudos e consequentemente isso vem como um retorno positivo para o lado profissional :)

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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