15 novembro 2012

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A questão da concorrência

Olá meninas!!!

Delícia de feriadão...

A "casa mal assombrada" da maioria dos profissionais é, sem dúvida, a concorrência. Falar, olhar, pensar no trabalho do outro e na influência que ele pode exercer na minha área de atuação é como estar em uma casa cheia de fantasmas, onde portas se abrem e fecham sozinhas, onde espelhos refletem imagens espectrais, onde não há controle do que acontece. E, quando estamos falando de dança então, vixe... os fantasmas parecem muito maiores do que já são. 



Quando penso em concorrência, me vêm à mente minha primeira reunião com profissionais de outras instituições financeiras. Na maleta, uma dezena de currículos prontos para serem entregues a quem eu pensava ser cacique no mercado, na mente um medo aterrorizador de que ao encontro de minha gerente caminhasse um profissional melhor e mais qualificado do que eu. Eu olhava tudo atentamente, mentalizava aqueles rostos que eu achava importantes, mas quando alguém ia cumprimentar inocentemente minha chefe, eu aparecia ao lado dela "como quem rouba" de tão silenciosa. E foi uma aventura, porque ela trabalha na área há uns 35 anos, já trabalhou em grandes instituições, ou seja: ELA CONHECIA TODO MUNDO. Jesuis, que desespero!!! Na minha ânsia de me fazer presente, para que ela nem pensasse na remota possibilidade da minha substituição, não fiz NENHUM CONTATO. Não conversei com ninguém, não conheci nenhuma pessoa nova, nada. Meus currículos voltaram na pasta sem nem terem sido tocados. E em mim uma frustração enorme, aquela era uma oportunidade ímpar de fazer contatos, mas eu estava tão focada em parecer insubstituível, tão preocupada com a concorrência, que deixei a oportunidade passar. 



E na dança do ventre, o "efeito psicológico" da concorrência parece agir como um cabresto em algumas bailarinas e em algumas escolas, condenando alunas a permanecerem aprisionadas em um mundinho restrito,  bem longe dos acontecimentos na dança, sem aprender a aplaudir o trabalho de outras profissionais, sem encontrar pessoas com as mesmas dificuldades e sem poder compartilhar conhecimento. 

A verdadeira bailarina "artista" não deve se preocupar com a concorrência, porque a arte não gera no expectador a necessidade de escolha. Dá para gostar do trabalho do "A" e do trabalho do "Z" e ter motivação para pagar ingresso para assistir a ambos. Há quem frequente shows de rock, e se sinta à vontade no show do Fernando & Sorocaba, da mesma forma que existe expectador que sente prazer na performance show de uma bailarina do Bellydance Superstars, e se emociona também com uma apresentação de Mowashahat. Porém, se para o público, se para o expectador, várias maneiras de expressar arte podem coexistir, porque existe este sentimento ameaçador tão latente para algumas bailarinas?

Não vejo a quantidade de profissionais no mercado como sendo a "resposta" para o terror à concorrência, simplesmente porque no circuito glam de dança do ventre, nas festas da comunidade árabe, nas emissoras de TV, nos clubes de alto padrão, principalmente em São Paulo, as portas estão abertas para poucas bailarinas - as de sempre, que não há necessidade de citar nomes, mas todos sabem quem são. E o mais engraçado é que essas bailarinas não parecem realmente preocupadas com a concorrência - são extremamente dedicadas à profissão, que é o que se espera de um profissional de alto nível, mas são seguras da posição que ocupam no cenário em que atuam e, mais importante, se respeitam enquanto profissionais e artistas. 

O problema, na minha opinião, é justamente a insegurança de algumas profissionais quanto a qualidade técnica delas mesmas. E a reflexão relativa à esta questão pode parar justamente nos famigerados selos de qualidade, concursos e etc. A aluna avançada é convidada pela professora (ou se aventura e mete as caras) a participar de uma avaliação para selo, padrão de qualidade, e etc. Tem um ano intenso de estudo direcionado, aprofunda sua técnica, amplia seu repertório, desenvolve habilidade de improviso, aprende a se comportar e a se produzir como uma profissional da dança, enfim. Tem 10 minutos para mostrar para 20 bailarinas suas habilidades, e a opinião dessas bailarinas têm o poder de te colocar em um patamar, ou de te manter esperando por mais estudo. A aprovação parece um presente, mas para a maioria das bailarinas é uma maldição: dá para contar nos dedos quantas retornam para a sala de aula, para o grupo de estudos, para o corpo de baile. 



Pra que? Agora eu sou uma "super selecionada togethers and evers forevers", tenho mais é que abrir meu espaço de dança, batalhar shows, exibir minhas conquistas e minhas alunas. Poucas bailarinas se dão conta que isso significa partir para um mercado onde já atuam bailarinas com anos e anos de experiência, internacionais, estabelecidas. E aí, depois de construir sua carreira como se fosse uma "casa sobre a areia", o que resta? 

1. Expor planejamentos de aulas e cursos "roubados" dos conteúdos programáticos de universidades de dança, ou de outras profissionais do mercado, sem, ao menos, ter conhecimento nem técnica suficiente para habilitar uma aluna a fazer um solo (já vi coisas de dar medo); 

2. Esconder as alunas do mundo;

3. Depreciar as outras profissionais para alunas e contratantes;

4. Fazer mimimi no Facebook, e, finalmente,

5. Utilizar todas as mídias possíveis chamando para si uma atenção que, no íntimo, nem ela mesma julga ser merecedora. 

Em relação às escolas de dança, o caso é um pouco diferente - neste assunto, estamos falando de algo que se escolhe, seja pela professora, seja pela estrutura da escola. É preciso entender que a aluna iniciante nem sempre conhece a fundo o trabalho artístico da bailarina e sua qualidade didática, e uma boa estrutura impressiona mesmo. Você condenaria alguém que desiste de uma escola que só abre às segundas, quartas e sextas, por outra tem a porta aberta todos os dias, e lhe dá a oportunidade de treinar em horários extra-aula? Tenho certeza que não. Porém, mesmo com esses diferenciais - boa estrutura e profissionais de qualidade, algumas bailarinas insistem em não prestigiar os eventos que não sejam os de sua escola, mesmo se esses forem na mesma cidade, no mesmo bairro. "Se a aluna tiver que pagar 10000 inscrições de 10000 eventos, ela não vai ter grana pra me pagar a mensalidade." Tá, mas e onde é que a aluna vai exibir o progresso conquistado em suas preciosas aulas? No espetáculo de final de ano? Para algumas pode parecer suficiente, para outras é um sofrimento, uma espera interminável. 



Para se libertar desse ciclo vicioso é preciso assumir uma postura profissional acima de tudo: ter a consciência de que, mesmo trabalhando com algo subjetivo que é a arte, existe a necessidade de aperfeiçoamento e reciclagem, e visão de mercado quanto à administração do negócio - tratar seu cliente (sua aluna) como ela deseja realmente ser tratada, e prover à ela toda a estrutura necessária para o desenvolvimento. Enquanto artista, é preciso ter humildade, focar em si e na sua necessidade de transbordar, e não ficar na mediocridade

Enquanto seu foco estiver no outro, sobrará muito pouco tempo e esforço para cuidar de si mesmo!

Beijos a todas e bom final de semana!!! 



2 comentários:

  1. Verinha, como sempre um post mtoooooooo bom!!!!!!!!!!!!
    Acho legal abordar esse assunto.
    Tem uma coisa que eu digo, que pra mim pelo menos faz todo sentido... pra q ficar em panelinhas, se juntar tudo e fazer um grande banquete é mais legal?
    Querendo ou não todo mundo tem seu trabalho julgado, o que importa é gostar do que se faz, se dedicar, continuar se aperfeiçoando. Tem gente que vai gostar, tem gente que vai detestar. O que importa mesmo é saber receber aplausos sem deixar que isso suba à cabeça, afinal, o aplauso é apensas uma consequência de um trabalho bem feito.
    Nem sempre a gente vai ouvir todos os aplausos q gostaria, nem sempre a gente vai receber críticas construtivas, mas temos que aprender a conviver com isso e entender q não é só de glamour que vive uma bailarina, mas também sangue (das bolhas nos pés) e suor.

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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