27 novembro 2012

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A aluna 2.0



Olá meninas!!!

Com dois irmãos trabalhando na área da educação, e observando o comportamento de 10 sobrinhos na escola, me vejo constantemente questionando as formas de ensino, atuais e antigas, sempre tentando elencar o que o formato atual tem de diferente comparado à forma em que eu fui ensinada. Em algumas áreas os antigos é que eram melhores, em outras observo uma grande evolução, enfim. 

Na minha época na escola, o formato de ensino ainda era extremamente tradicional: os professores e mestres eram os únicos detentores do conhecimento, e entre eles e nossa ignorância havia a biblioteca, pra quem tinha a iniciativa de tentar encurtar a distância intelectual entre alunos e mestres. A forma tradicional de avaliação incentivava a decoreba, e o ranqueamento de notas despertava uma competição absurda entre os alunos.

O fato é que mesmo havendo prós e contras, posso dizer com segurança que entrei no primeiro ano e saí do colegial sem questionar em nenhum momento o formato de ensino. Fui ensinada desde cedo de que o professor é uma entidade sagrada, somente ele é capaz de abrir nossa mente ignorante.


Hoje a moçada enxerga as coisas de um modo muito diferente. A teoria construtivista aplicada (ou que deveria ser aplicada) nas escolas traz o aluno como parte integrante da construção do pensamento, e não como simples receptor de uma mensagem. Dá ao aluno a possibilidade de escolha, inclusive, de não aprender, coloca (ou deveria colocar)  no indivíduo a responsabilidade sobre a absorção do conhecimento, e, principalmente, dá ao aluno o direito ao questionamento. E se o conteúdo em sala de aula é insuficiente para o aluno mais faminto, existe a internet e seus servidores infinitos, com tradutor on-line para conteúdo em língua estrangeira, não há limites para quem não tem preguiça. Isso é fantástico. 

E na dança?

Não sou capaz de emitir nenhum diagnóstico sobre o que se pratica em outras danças, mas em dança do ventre a forma de transmissão de conhecimento é a mais tradicional possível, sem nenhuma previsão de mudança. A professora detém (ou deveria deter) o conhecimento absoluto, e cabe à aluna o papel passivo de receber, apenas, seja lá o que for: estímulo, conhecimento ou cobranças. E a transição de um papel a outro ocorre no mesmo sistema avaliativo de que falamos no começo: existe essa fórmula da rotina clássica instituída, e o ranqueamento começa de forma muito sutil na distribuição de posições na coreografia, mesmo que seja pra dançar no bar do seu Zé. 

Para a minha geração (nasci em 1979), educada no formato "antigo", está OK. A gente se adapta, está acostumado - afinal, foram 14 anos na escola desse jeito. Fica até mais fácil, porque é um ambiente confortável pra nós: a gente chega na escola, espera o alongamento começar, "abre a mente" para o que vier, faz a horinha de aula e sai, completamente isento da responsabilidade da absorção daquilo que foi passado ali. E se você não aprendeu, e a coreografia não saiu a contento "a professora, também, passou a coreo só 15 dias antes da apresentação... quem ia aprender né?". Sempre tem a teacher pra receber a culpa. 

Mas..... e os novos???




Eu estou simplesmente obcecada por esse documentário da Itaú Cultural sobre o Ballet Stagium, e entre os depoimentos, todos disponíveis no Youtube no canal da Itaú Cultural, está uma descrição muito lúcida de Helena Katz sobre a forma de aprender das novas gerações (pelamordeDeus, assista a todos porque é EXTREMAMENTE enriquecedor, e vc terá a oportunidade de desmistificar certas coisas que a gente pensa que acontece só na dança do ventre):

"Eu tenho alunos muito jovens, e eles não tem a mais vaga noção do que aconteceu de 1995 pra trás. O mundo começa com eles, com o que eles sabem." (Helena Katz)

Essa nova geração, essa moçada de hoje que desperta o interesse pela dança do ventre, e que é protagonista em suas relações, vai para a sala de aula de dança, e tem que experimentar engolir o pronto, não questionar nada, e como recompensa por suas boas ações ela vai se apresentar em público, e quem sabe até dançar na fileira da frente. Ela pode querer se profissionalizar (aqui estou falando das mais jovens), até ser proativa, querer mais conhecimento, mas vai ter que esperar um tempo que ela ainda não sabe quanto é, que é determinado por um terceiro, que pode, inclusive, julgar sua qualidade e sua atitude artística. Ainda é cedo, ainda não é hora, ainda não é artista, ainda, ainda, ainda... 

E como já falamos um bilhão de vezes, essa busca por suprir as expectativas, acaba por tolher a atitude artística, no sentido de que o questionamento acaba virando inconveniente. Existe uma cobrança muito grande em relação ao desenvolvimento artístico,  mas quando se questiona, inclusive o que é ser artista, qual é a posição do artista nas relações atuais, aí é errado, aí não pode. Mas não é assim que foi ensinado às novas gerações. TUDO é questionável. 

Nunca devemos nos esquecer que esse protagonismo é inerente à nova forma de pensar, não é uma exclusividade da dança do ventre não. E enquanto as professoras alimentam uma maneira de ensino que não satisfaz a aluna, elas buscam produtos consumíveis fora da sala de aula. E a oferta meu amigo, está incontrolável. Por que? Porque tem quem compre. MESMO. Eu acho que tem a questão do capitalismo sim, do consumismo inveterado, mas tem um pouco de comodismo dos docentes em dança do ventre. Tem que haver uma mudança, é urgente a necessidade do artista da dança oriental se enxergar de uma forma menos egocêntrica e começar a pensar na transmissão do conhecimento com planejamento de longo prazo. E pra isso acontecer, vai ter sim que adaptar sua forma de transmitir conhecimento para suprir a expectativa dessa aluna sedenta de conhecimento em quantidade, mas lapidar a qualidade dessa dança 2.0 que tem muito, mas muito mesmo a oferecer. 

Ninguém disse que seria fácil. Mas não é impossível.

Beijos a todas. 


14 comentários:

  1. Olha, muito boa essa visão Vera. Legal!

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  2. Tenho sorte de estudar dança do ventre com pessoas que nunca se cansam de estimular as alunas a buscar o novo, a estudar com outras professoras, a conhecer estilos diferentes, a trocar conhecimento... Enfim, aprendi a buscar professores assim: que preferem agregar, multiplicar e compartilhar sabedoria a subir em um eterno pedestal de “mestre insubstituível”. É claro que, enquanto alguém está na sala de aula como professora, é obrigação da aluna respeitá-la, não no sentido de dizer “amém” a tudo, mas respeitar a posição hierárquica que outra pessoa ocupa na sala naquele momento. Se por um acaso você, como aluna, discorda ou deseja acrescentar algo ao que é ensinado durante a aula, tem que saber expor isso com respeito. E se você for educada e humilde, e a professora estiver realmente disposta a dividir e multiplicar seus conhecimentos com as alunas, ela não terá por que se ofender, pois é como diz o ditado: corrija um sábio, e isso o fará ainda mais sábio, mas corrija um tolo, e ele se tornará seu inimigo.
    Porém, já presenciei um comportamento bastante desagradável por parte de uma colega. Ela dizia não entender a dinâmica de determinado passo meio complicado que a professora estava ensinando. Com toda a paciência do mundo, a professora dissecava o movimento, repetia-o em câmera lentíssima, e ia acelerando aos poucos, para que a dita colega pudesse acompanhar. Em determinado momento, essa colega diz, em um tom meio arrogante: “mas não é assim que você está fazendo!”. A sala inteira, de tanto que a professora havia repetido, já compreendera a dinâmica do movimento, e tentava reproduzi-lo de modo lento. Só essa aluna ficava patinando e insistindo que a professora não estava executando o passo direito. Erro dela? Da professora? Creio que, na verdade, a aluna não teve naquele momento a humildade de admitir que não conseguiria executar, de um minuto para o outro, um passo difícil recentemente aprendido. Queria resultados imediatos, queria uma solução mágica para ontem, em vez de treinar com mais tranquilidade em casa, e respeitar seu próprio tempo de assimilação.
    Para alunas 2.0, é necessário que as professoras se tornem 2.0 também, e entendam que todos nós temos algo a aprender com o outro. O que não significa que a aluna tenha o direito de passar por cima da autoridade da professora em sala de aula, a ponto de atrapalhar o aprendizado de outras, inclusive. Se você percebe que certos professores estão “sonegando” conhecimento, deixando a desejar em muitos aspectos, você tem todo o direito de não aceitar essa situação. Mas o negócio é analisar profundamente dentro de você: o que eu realmente quero? Será que estou preparada para entender certas coisas? Será que eu respeito meu tempo e meus limites? Estarei passando os carros na frente dos bois, querendo queimar etapas, e culpando a professora por não conseguir aquilo que meu imediatismo tanto deseja?
    É para se pensar! E muito!

    Abraços carinhosos!

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    1. Oi Carol!!!! Adorei sua reflexão, e concordo com você. As novas formas de ensino trouxeram uma necessidade de resultados imediatos absurda também - e aí entra o professor 2.0 "inspirador" que, além de perceber o correto timing da aluna, consegue, de uma forma tranquila, sem diminuir a aluna, que ela aceite suas limitações e consiga entender que existe um tempo de maturação para as coisas.

      Minha "briga" neste post, vamos dizer assim, é com esse ensino imutável, que acaba por distanciar cada vez mais professora e aluna. Não é de se admirar, portanto, que as alunas, ao invés de admirar suas professoras, as idolatram, porque a distância se tornou tão grande e intransponível, que a professora ocupa um lugar de adoração, e isso nem sempre é saudável na transmissão do conhecimento.

      Beijocasssss flor!!!

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  3. Carol, reflexão p-e-r-f-e-i-t-a! Concordo plenamente com as suas colocações.
    Verinha, excelente post!! Você colocou o dedo no lugar da ferida que mais incomoda...
    Concordo que o formato de ensino se modificou, e, que com a internet as possibilidades de aprendizado são infinitas. Vale a reflexão em alguns pontos, complementando a Carol. Defendo que a gente deve ter confiança no professor e no que ele está ensinando. Neste ponto, a internet pode ser tanto uma aliada quanto uma armadilha. Existem tantas vertentes na dança que é impossível dizer qual delas é a forma correta de se ensinar ou executar um passo. Vai muito mais do feeling da professora para ela ensinar e orientar da melhor forma que a aluna aprenda e de acordo com a necessidade dela.
    Ser professor não deve ser fácil. Você sempre tá numa sinuca de bico. As necessidades das alunas são diferentes: algumas só conseguem aprender com o ensino arcaico, a outra aluna, apesar de estar no mesmo nível da primeira, já pesquisa sobre o tema abordado, quer saber mais, quer se profissionalizar, tem mais tempo livre para se dedicar aos ensaios.. Como lidar com isso diariamente? Há que ter o meio-termo e jogo de cintura é o que não falta nas bailarinas brasileiras!
    Não consigo avaliar o ensino da dança do ventre no Brasil e em nenhum outro lugar do mundo, mas, como a gente pode escolher o nosso professor de dança, ao contrário do que acontecia no ensino regular, está nas mãos da aluna o caminho que ela quer seguir. Não acredito que o ensino na dança aqui seja assim tão tradicional e arcaico, mas é só uma suposição tola da minha parte, já que eu não conheço o assunto e tô aqui na condição de aluna e amante da arte.
    Conheço um sem-número de bailarinas que disseminam o conhecimento e fornece subsídios para que a gente pesquise por si mesma. Essas bailarinas orientam o nosso estudo e enriquecem demais inclusive a nossa parte pessoal. Também conheço aquelas que tentam proteger o aluno das informações que a dança oferece no mercado.
    Enfim.. tem pra todo mundo e pra todos os gostos... Parafraseando a Carol, cabe a gente pensar muito e avaliar o que quer seguir...

    Beijo grande

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    1. Oi Mari!!!

      Realmente, ser professor não é fácil quando você se propõe a entender a necessidade do aluno e tenta encontrar um mínimo múltiplo comum entre o que se deseja ensinar, e o que a aluna precisa em um contexto geral.

      Ser professor se torna fácil quando eu aplico o método "cala a boca aluna", recebe aí e fique quieta, e se banhe da oportunidade de me ter como mestra.

      Concordo com você de que se pode escolher o professor de dança, mas fico pensando também que esse arbítrio nem sempre existe, porque a pessoa, quando não gosta do professor, também começa a se questionar se o problema é realmente o professor, ou ela mesma, porque se outras pessoas não têm nenhum problema com o professor e só ela tem, o que acontece?

      É complicado.

      Eu não vou dizer que conheço inúmeras bailarinas que já se adaptaram, conheço pouquíssimas, que são as verdadeiras professoras inspiradoras. A maioria (incluindo muito famosas) assume seu papel no pedestal e até estimula a idolatria, pois, quanto mais alunas-adoradoras forem geradas nas escolas, mais tempo a bailarina permanecerá intocável em seu pedestal...

      Beijoconas flor!!!

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  4. Adorei!!! Depois vou ver os vídeos em casa com calma... é preciso nos adaptarmos aos novos tempos :-)

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  5. Nossa Verinha, o que eu posso escrever mais, eu adorei tudo, e o vídeo que trouxeste??? Respirei novos ares, obrigada por abrir novos horizontes.

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  6. Oi, Vera

    Que lindo texto, nem sei com o que complementar.

    Acho que, talvez, o maior problema é você lidar com a impaciência das alunas. Você trabalhar durante um tempo algum grupo de exercícios, para aprimorar e limpar, é quase entediante ou enrolação. Como se elas treinassem diariamente.

    Enfim, amei.
    Beijos

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  7. Oiii, tdo beem?
    adoreii seu blog, muiito lindo
    de verdade!!!
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  8. Vera como sempre amei o seu post!!!! mas o que mas me atrapalha como professora é a falta de comprometimento....vc tenta montar um plano a longo prazo mas nunca consegue ir até o fim...qdo vc acha que está conseguindo as alunas também procuram outros caminhos, se profissionalizam ou param de dançar...é uma rotatividade muito grande...e também é muito difici lidar com o ensino ja que muitas fazem dança apenas por hobby nao como algo que precisem estudar, se aprofundar e como cobrar isso em sala de aula ?!

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  9. Vera como sempre amei o seu post!!!! mas o que mas me atrapalha como professora é a falta de comprometimento....vc tenta montar um plano a longo prazo mas nunca consegue ir até o fim...qdo vc acha que está conseguindo as alunas também procuram outros caminhos, se profissionalizam ou param de dançar...é uma rotatividade muito grande...e também é muito difici lidar com o ensino ja que muitas fazem dança apenas por hobby nao como algo que precisem estudar, se aprofundar e como cobrar isso em sala de aula ?!

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  10. Oie!!!
    Concordo com a Ana!!! A rotatividade ou o Hobby é um problemão que muitas vezes não temos como lidar, pq seria impossível obrigar a aluna se aprofundar em determinado assunto ou até mesmo permanecer na aula depois que ela se apaixonou pelo Pilates.
    Acho que é uma via de mão dupla:
    1) a professora tem que ter (infelizmente) jogo de cintura para agradar gregos e troianos.
    2) as alunas que querem um algo a mais da dança tem que sair da bolha e começar a prestar atenção no nosso "mundinho". Devem pesquisar incessantemente e estudar o quanto puderem (e o $$ permitir). Quem quer mais da dança tem que deixar o deslumbramento de lado, essa coisa de "endeusar" a professora é uó, pq aquela que se diz professora tem obrigação de dividir o conhecimento e nao estará fazendo favor pra ninguém!
    Dia desses vi alguém postando no FB que escola x é a melhor e que as professoras são o máximo, pq dividem seus conhecimentos. Na boa? Corre, Bino! É cilada! Eheheheheh

    Bjks!!!!

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  11. Dança do Ventre e Heavy Metal: uma boa combinação?
    Bailarina headbanguer arrisca fusão e faz apresentação em show de rock

    Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=2nrV0g4DDCQ

    CURTA A NOSSA PÁGINA: http://www.facebook.com/engatilhar

    Que o rock tem em seu perfil a transgressão, não há dúvidas. Que também se renova, à despeito dos muitos que praguejam que o dito cujo morreu, é fato. Perante essa ótica que a bailarina e headbanguer Márcia Pontes teve a idéia de mesclar a sua arte corporal - a dança do ventre, com sua preferência musical - o heavy metal.

    Nada muito "chocante" ou profundamente inovador, considerando as diversas bandas que mesclam o heavy metal com elementos da música árabe, apesar de pouco difundido em nosso segmento. Já existe até uma identificação específica para tanto: oriental metal. Mas será comum a apresentação da combinação da dança árabe com este estilo musical em shows de rock, principalmente no Brasil?

    Leia mais aqui: http://goo.gl/LYGt5

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  12. óla!!! meu none é Aline moro em Brasília, quero muito fazer aulas com vcs, e futuramente me tormar professora, gostaria de saber se vcs fazem aulas profissionalizantes e a duração? me mande resposta por favor alineblue_@hotmail.com

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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