10 setembro 2012

A dança do ventre no Brasil e a viagem da inspiração.


Olá meninas!!!

De vez em sempre me pego comparando o cenário de dança do ventre atual com a realidade que eu vivi em 2004 quando comecei as aulas. Dizer que tudo mudou é clichê e redundante, mas o quanto a dança, a forma de ensinar, e o modelo de profissionalização mudaram em 8 anos é o fator realmente assustador. 

Em contrapartida, temos Mme. Raqia Hassan que é pura pimenta quando coloca os pés na Terra Brasilis, emitindo opiniões polêmicas a respeito da dança do ventre no Brasil. Porém, Raqia Hassan não é nenhuma Verinha das couves de um bloguezinho de dança - ela é uma das mestras de dança oriental mais respeitadas do mundo, com 40 anos de experiência e dedicação. 

E Mme. Raqia já deu largas pistas de que não gosta da dança do ventre que se desenvolve no Brasil. 

Vivemos falando que a dança não está legal, que o excesso de clones na dança está interferindo no desenvolvimento da essência do artista, que não existe valorização por parte dos contratantes, que a ascenção rápida de alunas à posição de professoras está criando um cenário de dança sempre nivelado por baixo, e blá, blá, blá... muita conversa. Quando o mestre internacional, que observa nosso cenário de dança somente de fora, e verbaliza tudo isso de que já reclamamos faz tempo, a reação é negativa. Por que será?

O comentário de Raqia no Festival Luxor de 2010 (ou 2009? não lembro) foi que a dança do ventre no Brasil regrediu porque a busca pela técnica perfeita tomou completamente o lugar do sentimento e da personalidade. E ela mantém essa opinião em 2012. 

Se eu não participasse ativamente do meio, estudando incessantemente apresentações de bailarinas e tentando estabelecer uma linha de raciocínio da dança que é desenvolvida aqui, se ela me fizesse esse comentário e eu fosse uma completa leiga, eu diria que é pura maldade da parte dela. Mas a situação não é essa, infelizmente. Mme. Raqia está cheia de razão. 

Existe uma frase de autor desconhecido que diz "Somos muitas muitas em todo o mundo, seguimos a dança, o amor e a paixão. Limites? Não existem para nós. É nossa alma, é nossa vida. Sou uma entre muitas, sofro, faço festa, canto, rejuvenesço, revivo todos os sentimentos em apenas uma música…sou uma bailarina." Observando as bailarinas hoje, vejo que existe sim um limite, que é imposto por um senso comum, e que é implacável, rotula as bailarinas sem dó. Baseado no que sua dança "parece", no que ela representa plasticamente, você pode receber o selinho do "bom", ou do "ruim", do "apta", do "inapta". Como todas as decisões que tomamos no mundo moderno, essa rotulação acontece de forma muito rápida e impessoal. Acabamos por depositar completamente no outro nossa responsabilidade de pensar nossa dança, de estabelecer pareceres sobre ela. E então acabamos por desenvolver uma técnica para agradar o outro, e, em alguns casos, desconectamos nossa dança de nossa alma por completo. 

O problema não são os clones.. aliás, essa é uma parte pequena do problema. O grande problema, na minha opinião, é essa necessidade crescente de saber que X e Y te "aprovam", e que por isso sua dança está "IN". Porque este processo de agradar a outrem, essa necessidade absurda do feedback positivo, vai engessar sua criatividade, é fato. Quem é que consegue se conectar com a música, com a proposta do compositor,  quando está coreografando, ou quando está estudando para não perder nenhuma batida? Se alguém consegue, pode colocar a receita de bolo nos comentários??? É impossível. Porém eu vejo bailarinas escolhendo isso, escolhendo não estar nem aí para a música, ou para a platéia, ou para si mesma, desde que o arabesque saia perfeito, desde que a nota seja 10, desde que eu receba o selo.

"Queira nada e serás livre. " (Ivaldo Bertazzo) 
É examente isso que sinto na dança brasileira atualmente. Queremos tantas coisas ao mesmo tempo, aperfeiçoamento técnico, reconhecimento artístico e financeiro, desenvolvimento de uma consciência crítica para a dança, realizações pessoais e profissionais, queremos tanto, tanto, tanto, que ficamos prisioneiras do querer, e criamos em volta de nós essa bolha escura, que nos impede de enxergar adiante para tentar alcançar tudo isso que queremos. Dentro de nosso mundinho, de nossa bolha, somos perfeitas, estamos crescendo tecnicamente, a dança mudou para melhor. Mas quem está fora da bolha só vê suas paredes escuras. 

Acredito que o termômetro para medir a situação da dança do ventre no nosso país é a demanda por aulas. Eu não sei em outros estados, mas em São Paulo venho sentindo uma retração da procura por aulas de dança. Se a imagem da dança no imaginário comum não mudou, ainda carregamos o estigma de dança sensual e etc, as alunas potenciais deixaram de aparecer por qual motivo? Na minha opinião, é justamente o fato de que a dança do ventre não inspira mais nenhum dos sentidos não só dos conhecedores de dança, mas também do grande público. Infelizmente. 

Parafraseando o grande Nureyev: "Técnica é o que se usa quando falta a inspiração." Pelo visto a inspiração foi viajar e não tem previsão de volta...

Deixo com vocês um vídeo que me inspira muito, onde a técnica perfeita complementa a peça, mas o sentimento de Kherrington Payne é que toma o papel principal na dança. 



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