02 agosto 2012

Extraindo o novo do que é antigo: demodê ou receita do sucesso?

Olá meninas!


Assistindo às competições de ginástica das Olimpíadas Londres 2012 (#vício), é notável a absurda mudança a ginástica artística vem sofrendo nos últimos 20 anos. Os movimentos cada vez mais dotados de força, e a beleza e perfeição sendo deixadas de lado na pontuação se o grau de dificuldade e força do movimento é alto. Me espantou o fato de uma guatemalteca ter caído no salto sobre a mesa (A.K.A bunda no chão, o que invalida a chegada), e pelo salto executado ser o mais difícil do código de ginástica ela tirou 14.900 de nota. Por um outro lado, a transmissão não faz mais menção às grandes ginastas do passado como Nadia Comaneci, Helena Shushunova, Tatiana Gutsu, Svetlana Boginskaya, Lilia Podkopayeva (esta aliás, bailarina clássica de mão cheia, levou o ballet para o tablado com louvor!), Oksana Chusovitina... Tenho a impressão que Nadia Comaneci hoje não tiraria nota 10 na trave de equilíbrio com todos aqueles perfeitos mortais pra trás sem o apoio das mãos...

Lilia Podkopayeva, a bailarina da ginástica artística

De semelhante modo, a Dança do Ventre executada no Brasil mudou, e muito, nos últimos anos. O avanço tecnológico nos trouxe de presente muita informação e fonte de estudos, e ao mesmo tempo a possibilidade de conhecer em tempo real a dança que mobiliza as bailarinas do mundo inteiro. Nos possibilitou, também, conhecer a dança das bailarinas antigas, as da era de ouro, as mulheres que popularizaram a dança no Egito a partir dos anos 40. Se no final da década de 80, início dos anos 90 o problema da dança do ventre no Brasil era falta de informação, e a dança era praticamente intuitiva, hoje “estamos sobrando” com informação de tudo quanto é lado, inclusive com a possibilidade de estudo de diferentes escolas de conhecimento, fusões, e a dança é muito mais técnica.

Nos últimos 4 anos, particularmente, observo uma procura muito maior pelas bailarinas atuais. Quem quer dançar profissionalmente se inspira em quem está no topo ATUALMENTE, e dedica suas horas de estudo somente à estas bailarinas. Para citar alguns nomes: Saida (a mais mais com certeza), Randa Kamel, Soraia Zaied, Lulu Sabongi, Kahina, Dina, Darya Mitskevich, Jillina, Ju Marconato...

Ju Marconato, a grande musa da nova geração da Dança do Ventre

 Outro dia fiquei espantada com uma colega profissional que NÃO SABIA quem era Naima Akef! (OMG, como assim beeecha???) A partir deste insight, não é difícil perceber, então, o porque da dança ter chegado à este nível de estagnação tão forte e tão perjorativo. A dança hoje preza simplesmente pela perfeição plástica, e pelo impacto que os movimentos de maior dificuldade causam no público, mas peca demais em interpretação e expressão. Vira, portanto, uma dança vazia.

Todas as bailarinas citadas acima possuem uma rotina de estudos que envolve não só o estudo de outras referências, mas que preza o desenvolvimento do estilo próprio, e, principalmente, a maioria das brasileiras da lista utiliza como referência de estudo as bailarinas do passado, aquelas de quem falamos sempre: Souhair Zaki, Naima Akef, Taheya Karioka, Samia Gamal, Nagwa Fouad, Azza Sharif, Lucy, Nelly, togethers and evers. Esse estudo não envolve somente a dança, mas também o entendimento do contexto musical da época, que é muito diferente da diversidade de sons que temos hoje como estímulo para a dança. Motiva a bailarina desafiar o instrumento sem medo de perder a “postura” e a personalidade. Quem é que não se curva para aquele “hagallão” cheio de personalidade executado por Azza Sharif?



Mas o que será que acontece?

É simples, muito simples. A dança das bailarinas antigas não é aquela dança passível de recorte e reprodução. Essas bailarinas tinham como característica mais forte em sua dança o carisma, e, a maioria delas, tratava de colocar em sua dança uma assinatura particular, mesmo que a técnica não fosse a mais apurada possível (não todas). Por exemplo, eu não vejo tanto primor técnico em Taheya Karioka como eu vejo na Naima Akef, porém, existem outros fatores além da técnica dos passos a serem estudados nessa bailarina. Assistindo à sua dança, não dá para copiar NENHUM passo (mentira, dá para copiar os shimmies triangulares, muito pequenos e perfeitos), mas dá sim para estudar sua suavidade e delicadeza, principalmente nos lentos.




O estudo de uma bailarina não deve acontecer somente em frente ao espelho, reproduzindo passos e a partir deles descobrindo novas possibilidades. Esse estudo pode e deve começar nas bailarinas que inspiram as bailarinas que você admira. Além de entender melhor a dança que você está estudando, com certeza, novos caminhos se abrirão para o seu próprio repertório. Basta estar com a mente aberta para receber!

Beijos a todas!!!


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