25 julho 2012

Dança do Ventre, Dança Árabe, Dança Oriental, tantos nomes...


Aproveitando a deixa da Celinha do Dança do Ventre Brasil, resolvi também participar um pouco da discussão sobre os nomes da Dança. Há muito tempo eu planejava escrever sobre isso, e sempre colocava panos quentes na minha opinião, mas agora a falta de glicose no meu organismo tá me enchendo de coragem, simbora!!!!

O Brasil Escola define a dança como a "arte de mexer o corpo, através de uma cadência de movimentos e ritmos, criando uma harmonia própria". O ser humano foi dotado de sabedoria para decodificar um som, e criar movimento a partir do que o som decodificado desperta em seu interior. No entanto, o que esses movimentos cadenciados podem despertar no outro é completamente incontrolável. Para quem desenvolve pode se chamar dança, mas e nos olhos de quem vê? O que se chama? 

Quando penso na polêmica "Dança do Ventre ou Dança Oriental", logo me vêm à mente a questão dos homens no ballet. Se bailarina do ventre reclama por carregar o estigma de "sensual", imagina o homem que é heterosexual, gosta do ballet, é talentoso, disciplinado, estuda e ensaia várias horas por dia, e tem que carregar o estigma de "gay, frutinha, bichinha" e afins? Não, não pense que estou levantando a bandeira da homofobia. Mas homem que é hetero não gosta de ser associado à feminilidade, é fato. 



No entanto, eles estão lá, ralando pra caramba para levar adiante seu dom, seu sonho. Fico avaliando se algum desses homens pensou: "ah, mas está muito ruim esse nome ballet, evoca tanta feminilidade, tanta graça e beleza, tanta coisa de mulher... vamos mudar o nome para ginástica artística cadenciada. Nada mais justo, já que o movimento é atlético, a disciplina é até maior do que a esportiva, a única diferença é a presença constante da música. Esse nome ballet não nos serve e evoca algo que não queremos, vamos mudar!"

E mudaram? É certo que não. 

Logo da "International Academy of Middle Eastern Dance"


Essa dúvida que paira sobre a nomenclatura da dança não está acontecendo somente no Brasil - nos Estados Unidos muitas bailarinas também se esforçam para fazer valer o nome "Middle Eastern Dance" (Dança do Oriente Médio) ao invés de Bellydance. Porém, o que muda na prática? "Ah, aumenta o respeito quanto ao estudo, quanto à origem da dança, e, principalmente, altera a reação de quem ouve esse nome. Dança Oriental evoca algo que tem uma origem definida, define pertencimento, exige respeito. Dança do Ventre é só a dança da barriga."

Pra ser bem franca com todas vocês, não me sinto confortável dizendo que minha dança é "Dança Oriental", pois me sinto em falta com todas as outras danças do Oriente. Me sinto roubando, essa é a expressão. Estou "pegando pra mim" um nome que engloba muitas manifestações do movimento humano, sem ter direito. Talvez eu me sentisse melhor dizendo que é "Dança Árabe", porém, novamente, estou resumindo toda uma gama de danças em algo que não é propriamente árabe. Eu gosto é de DANÇA DO VENTRE. Gosto de ser uma representante de uma dança que mexe com o imaginário do público, que o transporta para uma outra realidade, que evoca sonho, mistério, sensualidade. Foi essa a minha primeira paixão e quero seguir adiante com ela. O meu enorme amor pela arte foi despertado por essa paixão. 


Observo, principalmente, que esta motivação em se mudar o nome da dança se dá pela visão externa do público em relação à dança do ventre. É certo que a dança do ventre carrega um estigma fortíssimo, feminino, sexualidade, fantasias masculinas, mas e daí? Mudar o nome não altera em nada a visão das pessoas. Eu posso colocar bem grande na frente do meu espetáculo "GRANDE ESPETÁCULO DE DANÇA ORIENTAL", e o público leigo, ao assistir a primeira bailarina balançando as franjas vai pensar "ah, é só dança do ventre...". 

E sinceramente, essa polêmica toda me desperta um sentimento negativo: o que acho é que falta coragem para a bailarina sair para o mundo e se posicionar, mostrar que a Dança do Ventre é muito diferente do que se pensa, do que se prega, e que é uma forma de arte séria. Não basta somente subir em vários palcos do mundo, ter um milhão de alunas, é preciso uma mudança de atitude no que tange à exigir respeito pelo seu espaço. 

Mudar o nome adianta só para quem aprende. Mudar a atitude pode também mudar a visão das pessoas, que é o que mais queremos.

Beijos a todas. 


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