03 junho 2012

Dance conforme a música - e seja honesta com seu sentimento...


É uma frase comum em meus workshops de maquiagem para dança: é preciso pensar no efeito da maquiagem quando vista de longe. Tem que estar bem feita, mas de uma forma em que as pessoas consigam enxergar seu rosto à distância. 

Às vezes penso que a dança do ventre em São Paulo também tem se tornado em algo que é muito lindo de longe, mas que de perto não me transmite nada além da beleza dos movimentos do corpo. Em uma época de padrões, pré requisitos, em que strass e battements adicionam mais à dança do que o íntimo da bailarina, sua força feminina e sua experiência de vida, o verdadeiro diferencial na dança, a cereja do bolo delicioso da performance, é a expressão. 

O lugar-comum no início do aprendizado é o sorriso. Para encantar os expectadores, nada melhor que um sorriso certo? Ok, Ok, já cantei dessa cantiga. Mas e naqueles momentos em que o sorriso parece não se encaixar? São esses insights que nos instigam a ir além no estudo da técnica corporal e começar a investigar o sentimento, e fazer transparecer na música que é o nosso coração que manda nas demais partes do corpo. A bailarina que consegue ir além da preocupação com a técnica e se comunica com o público através da melodia , que consegue por poucos minutos transportar o expectador para o seu próprio mundo de arte e beleza, é   a bailarina inspiradora.  Não existe fórmula mágica, infelizmente. Cada bailarina entenderá a música, a melodia de uma forma muito particular. Mesmo que não seja possível entender a letra, a melodia "fala" com o coração da bailarina. Você está pronta para entender essa mensagem?

Um exercício muito bacana é assistir a duas apresentações: 

Elis Regina - Como Nossos Pais - Fantástico (1976)




Eu já assisti a muitas apresentações da Elis 543563565323556532321365343544535343565 vezes, mas essa em especial é uma aula completa e complexa de expressão para qualquer tipo de artista. "Como nossos pais" de Belchior é um verdadeiro hino, um alerta à juventude que se considera tão vanguardista, tão revolucionária, mas ao final do dia é vendida ao conformismo e ao conforto do "vil metal". E a Pimentinha foi a cantora perfeita para levar essa poesia para o grande público. Nesta apresentação, ela canta como se estivesse conversando olho no olho com o expectador, mesclando de forma perfeita a flutuação da melodia, com a agressividade da mensagem.

Elis permite que a música habite nela, e que seu corpo e sua voz explodam a inspiração do compositor. Simplesmente épico este vídeo da Pimentinha.

Mas você aí pode argumentar comigo que Elis está entendendo a mensagem, que lê a poesia e consegue captar o que o autor quer dizer com ela. E nós, bailarinas orientais, que não entendemos uma palavra de árabe? Pois é. Realmente nosso trabalho é bem mais difícil.

Uma das minhas primeiras professoras me passou essa mensagem, de um workshop que ela tinha feito e ela havia achado super estranho, porque boa parte do workshop de musicalidade não é a reprodução da coreografia, mas uma aula sobre como interpretar a mensagem da melodia. E ela me disse que o primeiro insight com a música deve ser você, sentada, com um fone de ouvido, e de olhos fechados, "ouvindo o que a melodia diz ao seu coração". Bem diferente do "achei lindo aquela música da fulana", mas que é lindo na interpretação da fulana, e não na sua. O que essa música tem a ver com você? Que sentimentos você vai conseguir despertar no expectador ao interpretar essa música?

Pegando o vídeo de Elis como referência, sua forma impetuosa e franca de passar a mensagem, só consegui pensar em um vídeo: Lulu Brasil, dançando Mashoura de Emad Sayyah.




É muito interessante como Lulu "vive" os momentos da música com sua expressão. Em primeiro lugar, o figurino, o cabelo, parecem ter sido milimetricamente pensados para essa música que é imponente, mas tem uma cadência que permite várias brincadeirinhas, em outras permite uma pegada mais intensa no olhar, mais personalidade, mais sensualidade. E Lulu esgota CADA UMA DAS POSSIBILIDADES de expressão para esta música. A impressão que eu tenho ao vê-la se apresentar é justamente uma explicação do que cada momento da música fala ao coração dela: primeiro o mistério, depois a sensualidade, depois a imponência, depois a técnica, depois a raiva e por último a explosão. Nos minutos finais a expressão facial de Lulu muda, vejo nos olhos uma agressividade que ela quer colocar na dança, nos movimentos, que é tão diferente da graciosidade natural de Lulu. E é maravilhoso de se ver. 

No filme "Ghost - do outro lado da vida" (RIP Patrick Swayze), uma cena em que o Patrick "fantasma" tenta mover um objeto e o outro fantasma diz a ele que para mover um objeto sendo um fantasma ele tem que reunir todos os sentimentos: alegria, tristeza, medo, prazer, ódio, amor, e que a reunião de todos esses elementos dará a ele o poder de controlar a matéria, mesmo não fazendo parte dela. Minha opinião sobre a bailarina é exatamente a mesma: ao dançar ela deve reunir todos os sentimentos e saber colocá-los na música, para que sua performance não seja apenas uma exibição, mas que transforme a vida do expectador. Nem que for só por 5 minutos. 

Tivemos Elis, temos Lulu... e queremos mais. Quer embarcar nessa jornada???

Boa semana a todas!!! 




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