26 junho 2012

E a novela hein??? Todo mundo já esqueceu?


Fonte: Portal do Egito

Depois de muito tempo, com os ânimos esfriados e com a cabeça no lugar, aqui estou eu para falar um pouquinho das minhas impressões sobre o episódio da novela "Avenida Brasil", exibido em 02/06/2012, que colocou o mundo bellydance em polvorosa, e, de uma certa forma, nos fez voltar a refletir sobre o incômodo status "sensual demais" que a dança ocupa no imaginário popular. 

Confesso que quando assisti, fiquei tomada de uma revolta maior do que a cena merecia. Era a "minha dança" ali, exibida como um artifício barato de sedução. A dança, que nos custa tanto tempo, dinheiro, dores musculares, hematomas, suor e lágrimas, retratada como um simples fetiche masculino, sem o devido respeito que eu acredito que a dança merece. Os ânimos de todos ficaram exaltados no Facebook por, EXATOS, 3 dias. E, 20 dias depois, ninguém mais fala no assunto.

O fato é que o estereótipo vende. O jogador de futebol ingênuo e burro, a personal trainer que sobe a calcinha até o cérebro antes de dar aulas, a mulher que pratica dança do ventre pra "pegar homem", a enfermeira particular que mata o patrão pra ficar com o dinheiro, o policial corrupto, o professor pegador, enfim... o estoque de atrocidades que a TV pode praticar com as mais diversas profissões é infinito. Um diretor de novela é capaz de enfrentar a Igreja Católica de peito aberto se isso lhe trouxer alguns pontinhos a mais de audiência. Se tudo isso é de conhecimento de todos, pergunto: por que "diabos" uma profissional da dança do ventre escolhe se meter numa roubada dessa?

Nós, mulheres, somos treinadas desde a adolescência a nos tornarmos cada vez mais atrativas para o sexo oposto. Nos sentimos o máximo quando atraímos os olhares masculinos à nossa volta. Fazemos um verdadeiro ritual, desde o banho até a finalização do look com acessórios. Nos movimentamos à frente do espelho, exercitando o olhar, os movimentos, tudo milimetricamente pensado para a sedução. Os homens querem nos ver, e nós queremos ser vistas, admiradas, desejadas. É natural. Porém, ponha-se a pensar em um processo como um todo: não trabalhamos exatamente para que os homens nos desejem como os "tios" da novela? Talvez não de uma forma tão debochada e sem classe, mas a verdade é que acontece. Por que, então, nos indignamos com quem faz um shimmie diante de um velho babão, mas nos parece natural dançar sensualmente a música da Beyoncé na balada diante de um moleque cheio de tequila nas idéias, pra beijar móoooito e poder contar pras amigas depois? Não é subvalorizar o feminino do mesmo jeito?

Talvez eu fizesse a cena diferente. Ao invés de exibir conhecimento, talvez eu escrachasse em fazer tudo errado, da forma mais caricata possível, para entrar no clima da cena, que era o máximo da caricatura do que o imaginário masculino decreta para uma despedida de solteiro. Porém, sendo contratada como uma profissional da dança do ventre, sendo bem paga para tal (ou pelo menos eu espero que o cachê tenha compensado o stress), seria certo fazer isso? Não me furtei em pensar nas estrelas do Egito que são também atrizes e cujo público é sempre lembrado que elas são, também, bailarinas:




O que??? Fifi Abdo, a deusa, rebolando o popozão na frente de uma criatura embasbacada?? Pode produção? Pois é... Fifi Abdo fez, e não só essa cena, tenho um DVD em que ela dança na cama Habibi Ya Eini pra um careca gordo! NA CAMA! Mais sexual que isso só as aparições das bailarinas na TV turca. No entanto, ninguém questiona o talento e o profissionalismo da Fifi. Era um personagem e pronto, e foi desempenhado com o máximo de profissionalismo - a dança é uma delícia. Acabou a novela, acabou o personagem. Mas lembrem-se sempre: ela é FIFI ABDO, um monstro sagrado da dança, cujo legado é muito maior do que uma ou duas danças sensuais na TV.

Não estou defendendo nem a Rede Globo, muito menos as bailarinas. O que quero dizer aqui é que o objetivo da TV é o entretenimento, independente de agradar grupo X ou Y. Sempre vai existir motivação para retratar a mulher como um simples estopim para a sexualidade masculina. Cabe às profissionais que serão envolvidas no processo escolher se trarão a dança do ventre para este ambiente ou não. Fifi Abdo não teve problemas com isso, mas não dá para comparar Fifi com 3 bailarinas desconhecidas.

A lição que fica disso tudo para as bailarinas que estão na crista da onda e podem ser contratadas pela televisão é: escolham em que área de sua carreira investir, e como querem ser lembradas. Pensando na novela "O Clone", é importante ressaltar que a novela queria sim colocar a dança em um patamar sensual, porém, havia uma bailarina que trabalhava junto ao diretor construindo as cenas e dirigindo as danças. As performances consideradas "sensuais", na alcova, ficaram a cargo das atrizes Giovanna Antonelli, Letícia Sabatella e cia. As bailarinas profissionais exibiram sua dança em um ambiente festivo, onde ela era o destaque, e vista com muito respeito. Ademais, as bailarinas que dançaram na novela já tinham uma carreira sólida em suas cidades, e dançaram na novela como um complemento à sua "fama" local.

Se você é profissional, porém está firmando os primeiros contratos, conseguindo as primeiras alunas, ainda não teve oportunidade de se estabelecer no mercado de dança, meu conselho para você é muito cuidado com as aparições de TV sem um "dirigente". Pergunte, peça um script, e tenha o poder de escolha. Como você quer ser lembrada? Os 3 minutos que foram exibidos na TV passaram tão rápido que, 20 dias depois, ninguém lembra mais. Mas a má escolha que essas bailarinas fizeram, isso sim, sempre estará presente em suas carreiras, como uma mancha que terá que ser superada com muita, mas muita dança.

Beijos a todas

Leia aqui a resposta da Rede Globo a uma leitora sobre o capítulo da novela:
http://discursofeminino.com.br/?p=2603





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