13 maio 2012

A delicada relação da bailarina com o dinheiro




Olá meninas!!!

Me lembro como se fosse agora o dia em que comecei a trabalhar em um caixa de banco. Minha irmã, que também havia sido caixa de banco me olhou bem sério e começou a alertar como o dinheiro pode se tornar algo banal quando se manipula muito dele. E é a mais pura verdade. Quando se tem a oportunidade de se manipular, pegar na mão centenas de milhares de reais por dia, em pouco tempo você perde a capacidade de avaliar quanto é muito dinheiro e quanto é pouco dinheiro. 5 mil reais se tornam nada mais do que 100 notinhas de cinquenta reais, um bolinho de dinheiro que você guarda no fundo da gaveta do caixa. Daí você escuta que fulana comprou um carro de 50 mil reais financiado, ganhando 2 mil reais de salário por mês. Mas você, em um dia 10 da vida, manipula no mínimo 10 vezes esse valor, então dispara à queima roupa: "mas nem foi tão caro assim, é pouquinho por mês..."

Inspirada no podcast da Sala de Dança "Produção em Grande Escala", em que no final diz "Então você tem 5 mil reais em figurinos no guarda-roupa e no bolso tem quanto? 5 real, 2 real..." fiquei pensando no que leva a bailarina a banalizar o dinheiro que ganha, com uma facilidade semelhante à do caixa de banco. 

Tudo começa com uma questão cultural: na maioria dos casos, quando alguém decide assumir uma carreira artística, e expõe essa opinião a amigos e familiares, imediatamente é "elevado" a uma condição de sub-profissional, que passará o resto da vida sem dinheiro e fadado a depender de pais e amigos para sobreviver. Tenho certeza de que para essa afirmação haverá 25 pessoas falando "nossa, meus pais aceitaram super bem minha condição de viver de dança, não expressaram nem um pouquinho de preocupação", mas vou te dizer bem sinceramente: a não ser que seus pais também sejam artistas, e conheçam bem a "vida de professor/artista"  EU, pessoalmente,  NÃO ACREDITO NISSO! A família fica, sim, de uma certa forma preocupada. E a "aspirante" a viver de arte internaliza esse conceito - quem vive de arte não precisa de dinheiro, precisa de combustível para o seu potencial artístico

Nossa arte, em especial, é uma verdadeira armadilha financeira, em todos os aspectos. É um mercado que não vende apenas produtos, vende sensações, vende uma "proposta" de realização pessoal (e quem sabe, também, profissional) . No começo, é tudo tão lindo, colorido e encantador, que nem se percebe o quanto a dança do ventre consome do orçamento. Ela vai tomando percentuais inicialmente pequenos, quebradinhos,  e quando menos se espera, você está gastando 30%, 40% do seu rendimento nela. Ou seja, para viver a dança da maneira que a aluna idealiza, ela passa a subjugar sua vida social, seu conforto financeiro em nome de uma sensação de sucesso que dura 5 minutos. E o êxtase dos aplausos é tão grande, tão sublime, que minimiza todo o esforço financeiro que foi assumido para que aquele momento acontecesse. 

A aluna vai gastando cada vez mais com a dança (dinheiro, tempo, relacionamentos pessoais e profissionais), e após algum tempo, algumas esperam um reconhecimento que ninguém é obrigado a dar, uma vez que o esforço que ela vê, que ela julga fazer para dançar, ninguém mais vê. É um terreno extremamente perigoso, pois é daí que costumam surgir aquelas pessoas que se tornam amarguradas, e passam a reclamar da dança o tempo inteiro, das pessoas ligadas à dança, do mercado de dança, enfim, estão sempre prontas a dar uma palavra negativa sobre o universo de dança do ventre, quando na verdade tudo o que querem é uma "fatia do bolo" do sucesso.  

E quando a aluna "sobe de nível" para a profissionalização, essa busca pelo êxtase do aplauso, do sucesso, do reconhecimento, atua na capacidade de julgamento financeiro de algumas pessoas como um entorpecente, como uma droga, cocaína, heroína, whatevers.  E daí, não importa o valor do cachê, desde que haja olhares de admiração, não importa o valor da roupa desde que seu brilho seja refletido nos olhos do expectador, não importa que ela viva sem dinheiro e devendo para os outros, desde que sua arte esteja na "boca do povo". 

É uma verdadeira falta de respeito com toda a formação, com todo o trabalho para desenvolver os movimentos de forma perfeita, enfim, com todo o investimento pessoal para se tornar uma boa profissional. Um dos aspectos do sucesso é SIM conseguir mensurar quanto retorno financeiro sua profissão traz para você. E isso quer dizer escolher bem os trabalhos, saber valorizar o próprio trabalho através de um cachê digno. Quer dizer que "tudo bem" gastar R$ 10.000,00 para viajar ao Egito e ter aulas com os mestres no berço da dança, e cobrar R$ 50,00 de cachê por 4 horas de trabalho, com a justificativa manca de que serve como "vitrine" para o trabalho? Então é isso? O almejado "sucesso" na dança do ventre significa se submeter a um cachê indigno para ser considerado um profissional de qualidade? Hum... 

Além disso, é preciso reinvestir o dinheiro no próprio mercado de dança com responsabilidade - estou falando da reciclagem profissional com workshops e também com figurinos de dança. Se conscientize de que em cada realzinho seu tem suor, tem dores musculares, tem bolhas nos pés, tem horas longe da família, tem discussões com o namorado, tem caras aulas particulares e workshops internacionais - é absolutamente precioso. E deve ser gasto com o maior cuidado. Quantas aulas você terá que dar, quantos shows terá que fazer para pagar um figurino de 1.200 Reais? Esqueça o brilho dos strass nos olhos dos expectadores, pense como um profissional que tem contas para pagar no final do mês e precisa "fazer virar" para não atrasar nada. É CARO SIM. Mas por que tem gente que cobra esse valor por um figurino? Porque tem gente que paga. Porque como eu disse lá em cima, quem vende um figurino neste preço, não está vendendo uma roupa, está vendendo um status de "bailarina PHODA da roupa egípcia", está vendendo uma ilusão de sucesso.  E pensando assim, quanto é caro? Nada é caro. Nós é que estamos erradas em vincular nossa carreira na dança a uma porcaria de um strass. 

Neste ponto, concordo com a Hanna Aisha: somos muito amadoras. Até quando???

Beijos a todas, boa semana!!!




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