26 março 2012

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Bailarinas: Humanas? Ser ou não ser?


No meu trabalho, uma das atribuições é desenvolver um sistema para atender alguns requisitos do Basiléia II e do "iminente" Basiléia III. Política de crédito, rating, cálculo de risco é um assunto que me fascina desde a faculdade, mas na maioria das instituições financeiras, a linguagem mais técnica para "institucionalização" desses termos ainda fica com algumas determinadas pessoas, que participaram da implantação da Resolução 2682/99 do Bacen, foram às reuniões da Febraban, enfim. Alguns dinossauros que ganham muita grana e estão bem pouco dispostos a disseminar seus conhecimentos. 

Uma vez, conversando com uma colega que é estagiária, mas que já está mandando muuuuito bem, estávamos traçando algumas definições do sistema, quando sua gerente viu que ela estava praticamente conduzindo o assunto sozinha, e surgiu "da nuvem" falando daqueles assuntos tratados "no banheiro de Basiléia", do tipo que só ela saberia naquele grupo de pessoas, e depois de praticamente "vomitar" todas as minúcias dos cálculos de EAD e LGD, saiu triunfante como se fosse a pessoa mais importante do mundo. Ao olhar para o rosto lívido de raiva da colega, eu tentei colocar panos quentes: "é assim mesmo... ela tem que defender o dela né..."



Algumas semanas atrás me peguei usando a mesma expressão com uma colega da dança que estava um tanto chateada com certos acontecimentos do "mundo bellydance", mas com outra conotação: "Olha fulana, não fica assim, às vezes a pessoa faz isso porque tem que defender o feijão, afinal, ela vive de dança, e você, apesar de profissional, não depende da dança para pagar as contas...". 

Analisando algumas situações, essa, infelizmente não é a conduta mais correta - o bom profissional consegue lograr êxito em suas atividades, e faz com que elas apareçam sem que, para isso, seja necessário desqualificar o colega de trabalho. No entanto, atire a primeira pedra quem nunca olhou para sua posição com olhos egoístas. Seja o primeiro a levantar a bandeira da super-humanidade quem não assistiu à apresentação de uma colega de trabalho no mesmo barzinho em que você dança, e a viu arrasar na dança, e pensou "Jesus, se continuar assim, o contratante não vai mais me chamar pra dançar, não precisa!".

É um sentimento natural, é humano!!!

Max Stirner, filósofo alemão, vai mais além: "A realização pessoal de cada indivíduo se encontra no desejo de cada um satisfazer o seu egoísmo, seja por instinto, sem saber, sem vontade - ou conscientemente, a par dos próprios interesses. A única diferença entre os dois egoístas é que o primeiro estará possesso por uma idéia vazia, ou um espanto, na esperança de que sua idéia o torne feliz, já o segundo, pelo contrário, será capaz de escolher livremente os meios de seu egoísmo e perceber-se enquanto fazendo tal."


O que torna algo que parece tão natural quando estamos falando do que se pratica de segunda a sexta das 08 às 17 tão escandaloso, é o fato de estarmos lidando com arte, algo que, supostamente, tem o poder de fazer as pessoas felizes. Mas a parte "profissional" da arte nada mais é do que um mercado de trabalho estreito, volúvel e extremamente competitivo. Lembra do coxixo de camarim pré audição do filme "Cisne Negro"? O que tem de bonito? Nada. Além da dança, é um mundo vil e mesquinho. Essa "parte" da arte tem seu lado bom e ruim. De um lado, as bailarinas treinam à exaustão para serem consideradas "imprescindíveis"  em qualquer produção artística. Do outro, é preciso coração de pedra para aguentar todos os trancos da profissão. Será que só na dança do ventre é assim??? Tem certeza????

Tenho lido que o pessoal de outras danças é mais engajado, que o meio é mais ameno, que não existe tanta vaidade e competição quanto na dança do ventre, mas o fato é que esse olhar é bem de quem acompanha tal "meio" do lado de fora da rodinha. Quem está dentro tem as mesmas queixas "mundanas" que nós do planeta lantejoula. 

Não estou fazendo apologia às práticas ruins, pelo contrário. Eu também quero um mundo igualzinho o descrito na canção Imagine de John Lennon, e quero todo esse amor e essa paz para a dança do ventre. E talvez seja possível, se uma sementinha brotar no coração de cada um. 



O que me incomoda um pouco é ver o meio da dança do ventre rotulado como um meio povoado apenas por cobras e lagartos, quando os corredores do meu trabalho são bem piores. Quando os bastidores de audições de ballet são mentalmente muito mais ácidos e violentos. O meio de dança do ventre não é perfeito porque as pessoas não são perfeitas, e, vou abrir espaço para a sinceridade,  perfeição em tudo é muito chato! Não dá para apostar todas as suas fichas de felicidade em algo feito e conduzido por homens. Não dá certo. 

Aceitar a humanidade das pessoas do meio não quer dizer, absolutamente, ser conivente com a conduta errada. Quer dizer que você vai conseguir seguir em frente com sua profissão, com sua escolha, sem conseguir para si 3 úlceras no estômago. Siga simplesmente fazendo sua parte, desenvolvendo sua dança, estabelecendo seu networking, trabalhando suas mídias de divulgação, tudo COM EXCELÊNCIA. Seu público virá, e seu reconhecimento chegará, com certeza. E a parte boa é que você vai desfrutar de tudo com saúde e felicidade!!!!!!!!!

Boa semana, beijos a todas!!!!!!!!!!


5 comentários:

  1. Eu também discordo dessa afirmação que diz que o meio da dança do ventre (que eu prefiro chamar de dança árabe, porque também estudamos e praticamos folclores diversos) é o meio onde há mais inveja, egoísmo, panelinhas, etc etc etc.

    Já ouvi dizer de pessoas que convivem ou não nos dois meios que no jazz, no ballet, é muito, muito pior.

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  2. PS: Sem falar que, veja bem, em vários espetáculos de ballet ou academias há apenas uma "primeira bailarina" ou solista principal, posto que é muito cobiçado, e isso dificilmente acontece na dança do ventre.

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  3. Muito boa esta matéria, este é um direcionamento para aquelas que como eu faz parte do mundo da arte, mundo este que nos enlouquecem por ser mágico e que por muitas vezes nos faz sair do mundo real. Parabéns Verinha, seu blog é show.

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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