06 outubro 2011

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Tudo o que podemos fazer é o que o "outro" pode oferecer?



A necessidade de pertencer persegue o homem desde o dia em que nasce até o dia em que dá o respiro final. Até quem se auto avalia como diferente deseja a inclusão em um grupo, mesmo que bastante seleto, de pessoas que buscam o individual como processo de satisfação pessoal. Sendo essa uma característica tão nata do ser humano, não seria absolutamente estranho se, na dança, estar incluído nas "tendências" fosse também parte do processo de aprendizado. 

O problema é que com o avanço da tecnologia, e a inclusão de youtube e dos DVDs na rotina de estudos da bailarina, essa necessidade de pertencer virou "vício" de pertencer. Pensando no processo de criação coreográfica, as ídéias deixaram de ser as protagonistas. O que tenho observado é que o processo criativo na dança do ventre prioriza o "outro". O que está na moda vem em primeiro lugar:
- Quais são as músicas do momento?
- Quais são os movimentos que o pessoal está realizando mais?

Posso dizer que compreendo em parte essa tendência. Desde muito cedo, nosso processo de aprendizado é direcionado para um público leigo, porém absolutamente compreensivo. E até que sejamos "jogadas" na realidade dura de uma seleção que exige uma avaliação diferente de outro profissional que não a professora, ou, por que não dizer, de comentários nem sempre tão amistosos de um jurado em concurso , vivemos com a falsa impressão de que construir uma coreografia 100% inspirada no trabalho alheio "não há de ser nada". E note que aqui não estou falando do plágio de uma coreografia inteira, já vi coreografias "colcha de retalho" onde eu conseguia identificar diversas sequências de autoria alheia.

A situação se agrava quando nos tornamos solistas. Personalidade do tamanho que despreza totalmente o que o "meio" está fazendo e leva 100% de estilo pessoal para cima do palco é um privilégio de quem vê os pés da cobra. É automático: basta ver 3 ou 4 bailarinas marcando batida com aquele cambré impetuoso que você já pensa em incluir também no seu repertório o tal do cambré, mesmo que sua coluna já esteja nas últimas.  E a cultura dos selos de qualidade, que impõe a bailarina a "adequação" de seu estilo pessoal ao que é praticado em "X" ou "Y", acaba por tolher de vez a criatividade. 


Em minha opinião é um trabalho árduo e demorado reverter esse processo. Porém não é impossível, basta que cada professora assuma sua parcela de responsabilidade e inspire a aluna a algo diferente, porém, principalmente, desafiador, sem medo de parecer inadequada. Somente a alquimía produzida pela técnica refinada, criatividade, personalidade e irreverência é capaz de despertar no expectador o que toda artista aspira ao se apresentar:  a certeza da plenitude e eternidade da arte. 

E enquanto alunas precisamos nos despir do sentimento de conformismo em sala de aula, e exigir que essa a informação que nos é fornecida, seja ela teórica ou prática, esteja acompanhada de orientação para que possamos imprimir personalidade às nossas próprias criações em dança. Além disso, é necessário absorver mais, aprender cada vez mais, e cada vez melhor para transformar toda a carga de informação que é oferecida em 100% de "você mesma" em cima do palco.  

Neste ponto, o diálogo entre aluna e professora é fundamental. Porque é a professora, através de sua experiência, de sua vivência no meio, é que encontrará o ponto de equilíbrio entre o gosto pessoal da aluna, e os desafios que são apresentados no decorrer do aprendizado de dança. E é através do processo de investigação deste ponto de equilíbrio é que ela terá a oportunidade de conhecer as caracteristicas mais marcantes da aluna, de estreitar os laços de respeito e amizade com a aluna, além de, tecnicamente, despertar o que a aluna tem de melhor a oferecer

Esqueça um pouco "do que é feito no mercado" - pense um pouco mais no público que espera ver um espetáculo, e não somente um desfile de corpos se movimentando. O público quer ver você, e não uma cópia de não-sei-quem famosa. 

Acima de tudo, assuma para si ser uma "artista" no mais pleno significado dessa palavra!

Beijos a todas

11 comentários:

  1. Post ma-ra-vi-lho-so!!!
    Arrasou, Verinha!
    E assino embaixo! Estou nessa busca pessoal há tempos, e sinto que é o caminho mais belo!
    Beijos!!!

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  2. Mais uma vez um excelente post, PARABÉNS !!!

    Muito bem escrito, muito bem colocado todos esses aspectos que vemos e vivemos repetidamente no meio da Dança do Ventre.

    Ando super exausta de ler sempre as mesmas reclamações, e fiquei imensamente feliz porque, o que você colocou aqui, trata exatamente de uma outra linguagem, uma outra visão. PROCESSO CRIATIVO MINHA GENTE !!!!!!!!

    Estou vivendo justamente uma situação desagradabilíssima que está sendo investigada de plágio !!!!!!

    Um beijo enorme Verinha !!! Adorei a originalidade com que abordou o tema !!!!!!

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  3. A frase título ,já vale o post inteiro!
    E a imagem,mostra bem a questão : a cabeça absorve o que é oferecido,e um belo dia não sobra espaço nem para o que é seu fluir.
    bjss :)

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  4. Verinha q post arraso esse minha amiga !!!
    Tanta bailarina boa por aí q insiste em ficar sendo apenas uma "cópia" de tal fulana e esquece de colocar a sua própria personalidade na dança.
    Arrasou com o post !
    Bjks !

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  5. concordo com suas idéias, mas fico aqui pensando: quando alguém vem e dança com a alma, o estilo, é duramente criticada porque infelizmente as pessoas só absorvem o que o mercado propõe. quem está fora ou é excêntrica, ou original - mas sempre com dois pesos, duas medidas. a saída é: se quiser estar 'no padrão' estudo e prepare-se para atender à demanda de quem padroniza, se não quer, acostume-se a estar à margem do mercado... triste, mas real! :/

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  6. Pois é, tenho pensado neste assunto a dias!!

    Sabe o que é pior neste caso??
    É vc ver que tudo vai se repetir novamente e simplesmente não poder fazer NADA pra mudar pq não está em suas mãos!!

    Valeu Verinha por este post muito util e interessante só espero que certas pessoas passem por aki entendam isto!!

    Bjus

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  7. Olá meninasss!!

    Lucy!

    Eu também tô nessa busca, embora seja MUUUITO difícil resistir à tentação de guiar a dança pelos passinhos da moda, mas é um processo. Estou nele. Quando chegar no fim do arco íris venho aqui contar pra todo mundo como foi!!

    Mariana

    Menina, depois me conta esta história!! Que horror!!!

    Harah

    Fiz o desenho com esse propósito mesmo: quando começamos nosso processo criativo, é tanta coisa na cabeça que fica difícil estimular a criatividade.

    Marcelly

    No Yalla vi uma bailarina que acho LINDÍSSIMA em seu estilo pessoal, mas ela subiu ao palco sendo uma cópia da Kahina. Pensei na hora que era uma pena enorme, porque ela dança tão bonito... infelizmente, isso tem sido mais recorrente do que gostaríamos.

    Lu

    Você está certa: escolher praticar o estilo próprio pode ser uma assinatura na sentença de se manter à margem do sucesso. Mas penso também que as que se tornaram grandes hoje: Kahina, Nur, Jade, Mahaila... deixaram seus estilos sobressaírem à modinha e se tornaram grandes. Qual deve ser a receita do sucesso então? É complicaaaaado...

    Marcinha

    Este trabalho deve começar na gente! Como se diz por aí: se vc quer mudar o mundo, comece em sua própria casa. A gente deve se condicionar a estimular a criatividade, ter personalidade, defender um estilo próprio. Se cada uma fizer sua parte, o resultado geral será positivo!!

    Lívia!!!

    Beijos lindona!!

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  8. e o k tento passar sempre as minhas alunas pena elas nao verem issoooo

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  9. Minha nossa! Eu estava pensando justamente nesse assunto quando me deparei com o post. E a-mei!

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  10. Oi

    concordo em parte com a Lu; acho que quem tem um estilo diferenciado muitas vezes fica à margem porque as pessoas continuam querendo ver giros e arabesques. Mas existem exceções.

    Acho que o segredo, no geral, de se destacar é estudar e treinar bastante.

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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