27 junho 2011

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Consumismo: até para isso é preciso orientação?


Fico me perguntando se existe alguma mulher que fique passiva face ao glamour que exala a Dança do Ventre. Figurinos cada vez mais luxuosos e cheios de brilho, brincos e pulseiras com muito strass, cabelos e maquiagem esmerados. À primeira vista, é o mundo dos mais insanos sonhos femininos, em que a vaidade e a feminilidade podem ser elevados à última potência.

Como mulheres que somos, o "senso de medida" nos foi concedido de menos - temos uma necessidade nata de ter "muitos" - sapatos, bolsas, roupas, acessórios... E tudo isso é transferido para a dança do ventre também. Quando iniciamos nossas aulas e gostamos do ambiente, queremos muitas músicas, muitos lenços, muitos figurinos, muito tudo. É aí que passo a me perguntar: até onde vai a responsabilidade da professora na orientação do consumismo em sala de aula?

Toda essa reflexão começou no dia em que a minha vizinha me abordou perguntando se eu fazia dança do ventre já que ela havia ouvido música árabe por várias vezes aqui na minha casa. Respondi que sim, e ela então pediu que eu a auxiliasse na venda de alguns acessórios de dança, já aposentados há muito tempo em sua casa. Indiquei minha escola e as professoras conhecidas para que ela voltasse a fazer aulas, colocar seus acessórios em ação novamente. Diante da resposta negativa, fui à casa dela para dar uma olhada nos acessórios. Quase caí para trás:
1 figurino da 25 de março (esse é de praxe)
3 figurinos de luxo de um famoso ateliê de São Paulo
4 (??????) lenços de quadril
2 cintos de moedas
2 lenços de quadril egípcios
2 véus de seda
3 conjuntos para aulas



O que me intrigou mais ainda foi quando eu perguntei quanto tempo de aulas regulares ela havia feito: 1 ano foi a resposta. 1 ano, pra tudo isso de material!!!! Perguntei em seguida se ela já havia dançado com aquilo. Descobri que 2 figurinos foram usados em solos ou coreografias (o da 25 e um dos figurinos de luxo), e os outros dois figurinos de ateliê NUNCA FORAM USADOS.  Experimentei várias sensaçoes: em um primeiro momento fiquei pasma, depois senti pena (pelo fato de que ela deve ter pago uma fortuna por aqueles figurinos, que hoje serão vendidos por 1/3 do preço, já que não estão mais na moda), e em seguida revisei todas as situações pelas quais vivi na dança, e quais foram minhas orientações às pessoas que já foram minhas alunas, e pensei: meu Deus, será que a professora dela viu isto? Se viu, será que deu um alerta do tipo "pera lá menina, muita calma nessa hora"?

Desde que comecei, até os dias de hoje, meu consumismo na dança é direcionado a vídeos. Eu trabalhava perto da 25 de março, e não podia sobrar 30 reais na minha mão que eu já ia à Casa Árabe ou à KK me abastecer de fitas VHS. Minha professora na época, vendo minha empolgação no (altíssimo) consumo de fitas, principalmente didáticas,  não escondia sua reprovação, e comentava, às vezes de uma forma até meio antipática "você está consumindo muita informação, não vai saber absorver essa informação, e ainda vai adquirir vícios de treino de movimentos que não foram orientados em sala de aula".  Na minha cabeça ela estava cerceando meu crescimento, estava  com medo de que eu ficasse melhor do que ela (afff, coitada de mim). Hoje eu consigo reconhecer que, mesmo de uma forma "pedagogicamente incorreta", ela estava tentando me orientar, me alertar a este tipo de consumismo, que, sem direcionamento em sala de aula, iria ser prejudicial ao meu desenvolvimento na dança.

O consumismo faz parte do ser humano, de seu pensamento, de seu comportamento e do seu cotidiano. Nos dias atuais, em que "ter" é de uma importância maior do que "ser", a professora de dança do ventre assume também o papel de orientadora, de coaching, e deve sim emitir alertas quanto ao consumismo de produtos para dança que ainda não foram introduzidos no aprendizado e não fazem parte de nenhuma coreografia treinada pela aluna (tipo assim, a Verinha que tem um véu wings adquirido em 2005 que NUNCA foi usado). Obviamente a professora não tem e nem nunca terá o poder de impedir que a aluna faça o quer com seu dinheiro. Porém, a partir do momento que se estabelece uma relação de confiança e amizade entre a professora e a aluna, esses alertas saem do contexto "orientações de aula" e passam a ser somente um consellho entre amigas. "Olha, super na boa e de coração: você não acha melhor encomendar esse ultra figurino de luxo do ateliê mais famoso de São Paulo quando for dançar na festa de final de ano da escola?" / "Menina, vamos deixar para fazer o figurino de grupo, daí a gente investe um pouco mais e você aproveita mais do figurino, fará mais apresentações com ele". Inserções sutis, feitas com empatia e amor. Tenho certeza que plantará uma semente no coração da aluna e ela irá pensar melhor quanto à compra impensada.  



Outro "ramo" extremamente beneficiado pelo consumo irresponsável aqui em São Paulo são justamente os workshops. Meu objetivo aqui não é reduzir o público dos workshops, bailarinas de São Paulo, por favor não me matem!!! Mas pense o seguinte: o que uma aluna com um ano de dança entenderá, por exemplo, do workshop de Mowashahat do Tárik, um workshop de espada da Ju Marconato, um workshop de técnicas de quadril da Mahaila el Helwa? Claro que todos os profissionais citados aqui são competentíssimos e sua didática é maravilhosa, porém, será que a aluna está apta a aproveitar o conteúdo oferecido? A não ser que a aluna dedique muito, mas muito tempo ao estudo da dança, o conteúdo oferecido não será absorvido a contento. Ainda assim, os workshops ministrados aqui na cidade de São Paulo contam com um público o mais diverso possível, desde muito iniciantes até profissionais da dança, sendo que o conteúdo do workshop não será direcionado de acordo com o nível da bailarina. Investimento impulsivo que nem sempre trará retorno eficaz no desenvolvimento da aluna.

Na dança, como na vida, há quem encontre contentamento e aceitação quando assina um cheque e passa a ter a roupa da moda, o véu de grife e está no workshop badalado. Como professoras não somos responsáveis pelo exercício da personalidade da aluna. Porém, como orientadoras e amigas somos chamadas à guiar a aluna pelo caminho do consumo responsável na Dança do Ventre.

Boa semana!!! Beijocas!!! 

8 comentários:

  1. Ai, ai... Vera, obrigada pelo post, perfeito.

    Já fui assim. Não sou mais. Hoje peso muuuuito para onde vai meu dinheiro, inclusive se vou ou não perder meu tempo com algum evento.

    Beijos

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  2. Olá Verinha!!! Parabéns mais uma vez pelo post...
    Quem de nós nunca passou por uma situação dessas, ou já teve alguma aluna nesse perfil!!! É muito gostoso ver uma aluna com sede de aprendizado, mas muitas vezes isso pode se voltar contra ela se não houver um "breque" de nossa parte. Tenho uma aluna que veio de outra professora, que na empolgação de ter uma espada, comprou uma INFANTIL! Resultado... Há anos nunca usou a espada, teve que comprar outra de tamanho adequado e não consegue vender a pequena. Difícil agora saber se faltou instrução por parte da prof. ou se seria algo inevitável pelo anseio da aluna. Acho que cabe a nós (profissionais) a orientação para ao menos cumprir nossa parte, já que estamos lhe dando com um bolso que não é o nosso!
    Quanto aos workshops a meu ver, estão aí para acrescentar, seja em novas técnicas, para conhecer novos professores, abrir sua visão em relação a dança, etc.... Sei que em muitos casos são procurados pelo simples fato de "estar" participando de determinado evento... Mas aí cabe a cada aluna com a ajuda de sua professora, filtrar o que vai acrescentar ou não de acordo com o que está sendo feito em sala de aula. Mas acredito que o que vou falar a seguir abre uma brecha para UM OUTRO POST (sugestão verinha!!!). Nem todas as profissionais estão abertas a indicar ou não um workshop a suas alunas que não seja o seu! Talvez por insegurança de apresentar a elas uma outra profissional ou por achar que ela é a melhor. Acho que até o que já foi aprendido com você é bem vindo através de outra profissional. São formas diferentes de ensinar, ponto de vistas e estilos diferentes. Se você não confia no seu trabalho, quer exigir que sua aluna confie???

    Bom... Para terminar, em homenagem a este post, em meu workshop de setembro vou abordar um tema para alunas de BÁSICO! Realmente falando de works, dificilmente encontramos algo direcionado a elas.

    Beijos e obrigada por levantar temas que só vêm acrescentar e ao menos fazer pensar!

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  3. Oi Verinha, voltei aos comentários e prometo não me afastar mais desse maravilhoso mundo da belly-informação ...rs... Lembra do que eu te falei ontem hein ! hahahaha Olha a responsa!! =P

    Então este post é extremamente importante, pois todas nós, professoras e alunas, já passamos por isso, ou vimos pessoas ao nosso redor passarem...

    Acho que o agravente em relação aos workshops é que muitas alunas estão tão preocupadas com os certificados e nomes de professores de peso que ficaram em seu currículo, que não estão nem um pouco preocupadas em de fato aprender algo...

    Não me matem, pois obviamente não são todas alunas, mas sabemos que isso acontece.

    Cansei de ir à workshops e ver aluna sentadas nos cantinhos..... por não conseguir acompanhar ou por falta de interesse mesmo, já que estavam ali só interessadas nos diplomas.... É triste mas é fato.

    Como diz uma professora minha da facu, as pessoas não querem 'aprender' elas querem ser 'ensinadas' por que estão pagando.

    E o consumismo entra inclusive nesse item tb ... o aprendizado de DV !!!!


    bellybeijocas

    Pati Noce

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  4. pois é! meu primeiro 'acorda' foi qdo parei de fazer todos os workshops do mundo! rs...compensou no bolso e aprendizado sabia? muito bom. lembrei tbm de alguns casos de bellydancers que acabam 'obrigando' os namorados/maridos a bancá-las, muito triste.
    :/

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  5. Verinha!!!
    Ótimo post!

    O que a Pati Noce disse é altamente verdade! Já participei de vários works, inclusive direcionados às ditas "avançadas/profissionais (em tempo, o que e quando se define o nível? É confuso para que eu te responda e provavelmente as pessoas confundem também) e o que fica de gente sentada da metade para o final do work não é brincadeira.

    Porque "tô pagano" e ninguém tem nada a ver com isso? Também... mas tem gente que não acompanha mesmo. E isso tem a ver com o passado negro da "dança do ventu". Professoras aos quilos foram "formadas" na era pós-Clone e estas formaram outros tantos quilos de professoras.
    Mas não dá para enganar por muito tempo, pq quem é leigo tb aprende a diferenciar o bom do meia-boca. E foi aí que as coisas começaram a mudar e é por isso que ainda tem gente que não acompanha work fodástico.

    Claro que é isso o que eu particularmente (aqui dentro da minha cabecinha) penso e já tive a oportunidade de acompanhar alguns desses "causos" de perto. Mas bobagem...

    Às minhas alunas indico vários cursos, mas apenas o que sei que elas irão conseguir acompanhar (tb tenho vergonha do meu nome jogado ao vento, né?) e elas mesmas me questionam sobre alguns cursos. Se eu estiver matriculada e elas quiserem me acompanhar, tudo bem. Eu assumo a responsabilidade de, depois do curso, treinar o que elas não conseguiram realizar (Né, Jake? A Jake é minha parceira de works www.oblogdajake.blogspot.com).

    Quanto aos vídeos, já temos uma videoteca respeitável, pq compramos vários dvds em vaquinhas gordas! hauahuahuahau
    É bom, pq podemos estudar todas juntas ou separadas, tirar dúvidas, treinar coisas legais...

    Bjoks para todas

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  6. A única coisa que eu não gosto do blogger é justamente não poder responder os comentários um a um.

    Meninasssss... estou adorando a participação de vocês!

    Hanna:
    Acho que todas nós passamos por esse momento de consumo irresponsável dentro da dança né? Mas a minha pulga atrás da orelha é: quantas pessoas vieram na boa intenção e te alertaram disso? No meu caso nenhuma, e é realmente uma pena...

    Carol:
    Eu com o véu wings, sua aluna com a espada infantil... tem causo nessa área pra mais de metro.
    Vc levantou uma questão importantíssima, pensarei bem nela: quantas profes por aí tem confiança suficiente de enviar suas alunas para experimentarem workshops com outras professoras. Tenho certeza de que tem MUUUUITA gente que jamais ultrapassou os muros da escola nesse assunto.

    Patyyyyy....
    O lance é ter a fotinho com a bailarina famosa no Face ou no Orkut. Lá nos idos de 2005, 2006, era uma competição de fotos com bailarinas internacionais no Orkut que dava nojo. A grande pergunta é: será que esse povo absorveu o conhecimento dispensado?

    Lú e Salomé, tudo junto e misturado!! KKK...
    Affff, esse lance de envolver o marido é o pior de tudo. O coitado não tem nada a ver com o peixe, e ainda tem que pagar a conta!

    Tati:
    Eu nem preciso dizer que sou tua fã né? Não só como bailarina, mas como coach, porque sei do trampo que vc dá com suas alunas, inclusive orientando-as em relação ao pensamento crítico na dança - pra TODOS os assuntos.

    E as "vaquinhas gordas" é um jeito muito legal de ter uma videoteca boa e gastar pouco, fica aí a dica pro pessoal.

    Beijos no coração de todas (Camilla, beijocsss)
    Comentem bastante, tô adorando!

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  7. Trocar experiências com gente cabeça é outra coisa, né?

    Então, ninguém me orientou não e confesso que não me sinto à vontade para fazer isso. Talvez porque nunca me apareceu nada bizarro.

    Sobre works, nem me preocupa porque eu deixo elas superlivres para isso, mas estamos sempre conversando sobre as profissionais e minhas experiências.

    Beijosssssssssss

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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