19 maio 2011

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A força da "Juventude do Ventre"


Quarta passada à noite na minha aula a prô estava elaborando uma coreografia clássica que iremos apresentar em alguns concursos. Junto comigo, 4 mocinhas, todas com menos de 20 anos de idade (isso mesmo, sou a tiazona da sala de aula). Todas com mais de 10 anos ininterruptos de dança do ventre. Fiquei embevecida com o processo criativo delas, não só pela técnica, que é excelente, mas pela forma como tratam a dança em si . Não é novidade para nenhuma delas  que dança é coisa séria, e “de gente grande”, mas quando estão criando e dançando, estão se divertindo. E muito. 

Gabrielle Huang, 12 anos de idade, 6 anos de dança do ventre.
Uma das grande promessas do futuro.

Por muito tempo, mas muito tempo mesmo, eu me ressenti com esse “movimento” que acontece na dança do ventre: bailarinas cada vez mais jovens, com muito talento, dominando o cenário artístico. A bailarina top da nova geração, Kahina, tem só 27 anos! São bailarinas com objetivos profissionais muito distantes das primeiras bailarinas de dança do ventre famosas neste país: elas treinam muito, dançam muito, organizam empreendimentos, juntam forças, crescem cada vez mais. E, principalmente: não complicam TANTO seu relacionamento com a dança como a maioria das “tiazinhas do ventre” (eu, inclusive) fazem. 

Hoje vejo o quanto essa minha visão da dança era parcial, tendenciosa e bitolada. 

Beatriz, 18 anos. 
Bailarina profissional, professora e coreógrafa. 

Para essas meninas, profissionalizar-se na dança do ventre é um processo que se torna natural como passar de ano na escola.  As que escolhem se profissionalizar têm na dança do ventre sua primeira oportunidade de ingressar no mercado de trabalho, e às vezes já iniciam na carreira com uma qualidade que coloca algumas bailarinas “côro velho” (aloww Hadara) no chinelo. 

Artisticamente, para as bailarinas dessa nova geração, o céu é o limite. A maioria delas pratica outro tipo de dança com o objetivo de somar seu repertório na dança do ventre: ballet, jazz, dança contemporânea, danças de salão, dança cigana, dança indiana... algumas também se aventuram no circo para melhorar a flexibilidade. Outras, ainda frequentam aulas de teatro, querem o domínio do palco, da expressão e da consciência cênica. 
Essas bailarinas, quando procuram um curso superior, já o fazem dentro da própria dança - ou, pelo menos, em Educação Física. 

O resultado é uma dança requintada e elegante. Há quem critique os excessos de ballet, é verdade (tipo eu assim), mas é inegável que a presença dessas "mocinhas do ventre" no cenário artístico tem alterado sim a visão do público - pelo menos aqui em São Paulo - para com a dança do ventre. Óbvio que o tratamento do público para com a dança ainda está a anos luz do ideal, mas esse sopro de mudança vislumbra um futuro muito positivo para quem pretende se profissionalizar em dança do ventre - mais respeito dos contratantes e do público e cachês maiores. Mas atenção: a cobrança de quem está contratando também está ficando bem maior. 

E a maneira de lidar com a insatisfação dessas meninas é a mesma que utilizamos quando estamos insatisfeitos no trabalho: ou muda ou morre de úlcera. A maioria prefere mudar sempre, se reinventar, ao invés de ficar digerindo a crise para vê-la ferir o estômago - e, por que não, a alma. 

Leila, 16 anos.
Bailarina profissional, professora e coreógrafa. 

A essas pequenas notáveis, o nosso respeito... 

Que possamos aprender com elas que é possível amar dançar e encarar a dança como uma profissão que oferece dissabores e desafios, como qualquer outra. Que nos deliciemos com sua dança alegre de hoje, com a esperança de que fiquem ainda melhores quando estiverem mais maduras, e nos permitam ainda mais muitos anos de alegrias!!!

8 comentários:

  1. Aqui no Rio existem alguns exemplos de "Pequenas notáveis" e meu respeito por elas é grande! Aliás, muito maior que de outras "old generation". Mas faço aqui uma pequena crítica a essas "pequenas": não consigo ver em suas performances, maturidade. Não tem a ver com pessoal ou perfeição de movimentos. Defino aqui "maturidade" como um ar de que elas realmente estudam história, sentimento e sentido da cultura árabe e do lugar da Dança do Ventre antes e hoje. Eu me vejo nesse processo de amadurecimento, coisa que só a idade (aí sim) e experiência trará. Entende? "Blasfêmia, é claro que elas estudam!" Sim, com certeza, mas a impressão que tenho é de que os estudos se concentram basicamente em dançar parecidas com a Saida, Kahina, Soraia ou Hadara Nur.
    Mas concordo com você de que as novas gerações (daí puxo sardinha pro lado das bailarinas de quase 30 heheheeh) estão direcionando bastante a qualificação precoce das alunas.

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  2. Uii amei!! Realmente me espantei com meninas tão novinhas dançando tão bem!! Muito bacana isso! na minha opinião com elas o futuro tende a ser de uma dança ainda mais encantadora!

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  3. que bacana, Verinha! ao invés de criticar, vê-las como um desafio a ser superado e correr atrás tbm! muitas alunas minhas, um pouco mais velhas, começaram a fazer aulas de ballet e alongamento para acompanhar o pique das mais novas...todas saímos ganhando com isso! com o tempo, só melhora... a expressão, principalmente - pq ela está diretamente ligada às experiências de vida e, isso, realmente só as 'tias' têm...rs

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  4. Verinha, penso que é mto difícil fazer este comparativo da nova geração com as bailarinhas mais antigas. Mesmo pq o foco hj em dia é perfeição técnica e cênica, sendo que uma década atrás era questão de 'feeling'e expressão pessoal. A técnica existia sim, mas dentro de outro contexto, no qual sua função era expressar não só a tradução da música mas da personalidade da bailarina. Com o padrão competitivo atual, as formas de aperfeiçoamento exigem e mto que a bailarina atinja outros níveis e literalmente vire do avesso pra se profissionalizar. Mas são os 'tempos modernos'. Por isso que cada geração tem seu espaço definido.
    =)

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  5. Oi Van!!!

    Concordo plenamente com vc! O objetivo do post não é comparar as mais jovens com as mais antigas, já escrevi aqui sobre o diferencial das mais antigas nesse post:

    http://www.amarelbinnaz.com.br/2010/05/de-quanto-vale-experiencia.html

    Quero mostrar o quanto essas meninas vêm lutando por espaço cada vez mais cedo, e a movimentação delas no cenário nacional da dança têm trazido mudanças positivas pra todo mundo!

    O que gosto mais nessas meninas é que elas não depositam sobre a dança a razão de sua felicidade. E acho que esse fator evita essas crises imensas de identidade que nós da geração anterior temos com a dança, porque depositamos nela o fardo de ser nosso escape, nossa fonte de realização, quando, na realidade, se depositamos qualquer fardo, sobre qualquer coisa, ela deixa de ser uma fonte de prazer.

    Adoro seus comentários sempre flor!!!!

    Beijocsss

    Ah, antes que eu me esqueça: a frase "colocam algumas bailarinas coro velho (alowww Hadara) no chinelo..." Dei um alô pra Hadara porque a expressão "côro velho" é dela, e não porque ela é o exemplo... não vamos confundir galera!!!

    Beijocas a todas.

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  6. É isso aí Verinha, vc disse tudo e mais um pouco, pra variar!
    Concordo que nossa geração complicou a dança sim com essa profundidade emocional. Mas daí ocorre outro pensamento simultâneo, que complicamos a dança há anos atrás qdo éramos mais novas, com todas as complicações daquela época.
    E daí eu penso de novo, não é só na dança que a meninada está descomplicando, mas em tudo na vida. Escola, amores, primeiros empregos, família, parece que a juventude está mto mais 'esperta' e tira de letra todas e mais algumas questões que nos faziam perder o sono e ganhar espinhas a toa há 10-15 anos atrás rs.
    Porém, ao mesmo tempo que eu tiro o chapéu pra evolução técnica que essa nova geração traz pra DV, eu não me emociono da msm forma natural que acontece qdo vejo bailarinas maduras dançando. Infelizmente este tipo de encantamento e emoção natural da dança vem junto com a maturidade emocional, que sinto mto, mas aos 15-16-17-18-19-20 etc anos uma mulher raramente tem.
    Penso que ficamos boquiabertas ao ver o nível de perfeição que o corpo destas meninas pode executar, mas isso não não quer dizer que tal perfeição cause emoção e nos toque a alma.
    bjs

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  7. *

    obrigada, era isso que eu queria dizer!

    beijos

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  8. Gente! Que coisinha linda esta Gabrielle, amei! E eu que já passei muitas fases chateada por causa da minha idade, sempre quis ser bailarina profissional mas só agora depois dos 28 pude iniciar meus estudos, velhinha, velhinha ... kkk

    Beijos!!

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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