27 dezembro 2010

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Retrospectiva 2010: O legado de Reda e a leitura de Lulu

Nesta semana e na próxima farei uma série de posts falando de algumas coisas que em minha opinião foram importantes para a dança em 2010.

Exaltar o legado de Mahmoud Reda para a dança oriental é chover no molhado. Sua contribuição para a perpetuidade da dança oriental vai além simplesmente da difusão de passos, da inserção do ballet na dança oriental, ou da construção coreográfica. Podemos afirmar, sem medo de errar , que Mahmoud Reda é responsável por colocar o folclore egípcio nos grandes palcos e nas grandes produções, sem que as apresentações fossem vistas como "simplórias" ou "amadoras".

Mas, o que há de tão especial neste bailarino e coreógrafo?

O governo egípcio diz que ele é "capaz de representar o melhor do Egito, tanto na dança como na música".  Não poderia haver definição melhor. No filme "Cleópatra", Julio César diz que a grande rainha É o Egito. Mentira. O Egito é Mahmoud Reda. Sempre foi.


Nawal interpretando uma obra prima de Mahmoud Reda - Ya Msafer Wahdak.

Nós, brasileiríssimas, adoramos de paixão o trabalho desse grande mestre, mas engana-se grandemente quem acredita que é simples fazer uma releitura de seu trabalho sem descaracterizá-lo.  A leitura musical proposta por Reda é muito diferente do que estamos acostumadas: fomos ensinadas por todas as mestras a efetuar a leitura da melodia, ou do instrumento solista. E o compromisso das coreografias criadas por Mahmoud Reda é com a harmonia cenográfica.

Observe um exemplo:



A música se chama Men Gher Ler, e possui uma "Entrada da bailarina" (ou como sua professora te ensinou a chamar essa parte da música) que seria executada por nós brasileiras com deslocamentos, e, por que não, com uns arabesques aqui e ali. Depois da entrada tem um kanoun que, com certeza, seria "lido" com um tremido acompanhado de braços bem leves, visto que trata-se apenas do começo da música, e etc..

Acompanhe o vídeo: TUDO DIFERENTE NENÉM. É difícil estabelecer uma "linha de raciocínio" para os passos escolhidos por Reda, porém, suas composições são inegavelmente belíssimas. Estaria tudo perdido para as brazucas no estudo do bom velhinho da dança do ventre?



Um dos acontecimentos em dança realmente relevantes em 2010, EM MINHA OPINIÃO, foram as apresentações das coreografias de Muwashahat sob a batuta de Lulu Sabongi. Em primeiro lugar para nos apresentar à essa forma de dança tão diferente, já que trata-se de uma "poesia cantada", e seu compromisso é complementar a beleza da poesia, e não a exibição da dança em si. Em segundo lugar para nos apresentar à música de Fouad Abdel Majid, de uma beleza incomparável. E, finalmente, porque são as primeiras coreografias brazucas apresentadas com passos e sequências genuinamente "Reda".


Nessa coreografia, que é chamada "Tributo a Farida Fahmi" (Farida Fahmi foi cunhada de Mahmoud Reda - sua irmã faleceu nos anos 60 - e foi estrela maior do grupo "The Reda Troupe" por anos), vemos várias inserções de sequências de Mahmoud Reda, incluindo os passos do refrão. Este número é belíssimo por um conjunto de fatores: o figurino luxuoso e colorido, as tiras de tecido nas mãos das bailarinas, o nível técnico das bailarinas e o desenvolvimento gracioso dos passos. Não é exagero dizer que essa peça poderia fazer parte de um requintado espetáculo de dança sem perder em nada para os números de ballet clássico.

 


Nessa coreografia que já é uma adaptação de uma das coreografias do Reda Troupe vemos muito mais sequências e uma leitura musical mais genuína do estilo Reda de interpretar. Sasha na introdução representando Farida Fahmi (momento tiete mode on: AHAZÔ BEEECHAAAA!!!) foi perfeita na execução, "entrou na poesia" de cabeça e foi sublime. Sem demagogia, eu acredito que é preciso se desprender de tudo o que aprendemos quando o assunto é dançar Mahmoud Reda porque o tempo dele é extremamente diferente do nosso. Não adianta só fazer a leitura perfeita e desenvolver a técnica, mas emocionar! Fazer uma conjunção dos passos, da técnica, da poesia e da emoção e proporcionar ao expectador não só uma bela dança, mas uma experiência inesquecível. (Nossa, agora falei muito Jorge Sabongi. Vou parar de ler o livro dele, ehehhe...)

Que venham muitas outras coreografias "Reda" a partir desse "chute inicial" proporcionado por Lulu, que é uma grande multiplicadora na dança do ventre do Brasil. Muito obrigada Lulu por mais uma vez nos presentear, dessa vez com uma magnífica inserção de Mahmoud Reda na dança do ventre brasileira.

7 comentários:

  1. Nem vou comentar do Rheda pq escrevi um topico sobre a minha emoção de conhecer o "Bom velhinho"

    Apenas digo uma coisa: AGUARDE DEBORAH, NANA HASHED E CAMILA rs..

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  2. Oi Amar!!

    Hihi fiquei moh feliz q vc respondeu meu scrap!!nao esperava!agora perdi a vergonha vou sempre comentar!rs
    Adorei o post sobre Reda,nao conhecia o trabalho dele!vou estudar muito!
    Ah,gostaria muito de participar do encontro!mas ainda nao tenho previsoes de voltar ao Brasil mas um dia eu irei com certeza!!
    Venha,venha conhecer o Japao te levo nas lojas de maquiagens vc iria pirar!rss novidades e novidades a todo tempo!
    Boa entrada de ano pra vc,saude em primeiro lugar!felicidade e sucesso!!
    bjoo

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  3. Querida!

    (momento tia Verinha)

    Que primor esse post!!!

    phodástico, PHODA! Com direito a "PH" como 100% do que vc escreve!

    obrigada por compartilhar! maravilhosos esses vídeos, maravilhoso o que está escrito!!!

    ah! adorei o momento Jorge Sabongi!
    rsrsrsrsrsrs

    Muitos beijos, e Boas Festas!

    Momento Juzoca... rsrsrsrs

    Ah! Obrigada de coração pelo comentário no meu post!

    eu fiquei tão orgulhosa! Imagina agradar a vc! Ganhei o ano!!!!!!!

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  4. Tava pensando aqui comigo: Reda inseriu vários passos de ballet na dança oriental para torná-la "apresentável" nos palcos. Por isso tornou-se, merecidamente, um ícone.
    Volta e meia surge o assunto "ballet na dança do ventre", e muita gente é contra o fato de que ultimamente as bailarinas andam inserindo arabesques, giros e deslocamentos em detrimento dos movimentos apenas com os quadris.
    Mas Reda já não fez isso há décadas atrás? A própria Vera reparou em um dos vídeos que, em vez de tremido com ondulações no instrumento de corda, ele preferiu seguir o andamento da música, ainda com arabesques e giros, e praticamente nada de quadril. Uma leitura musical puramente balética, se me permitem.
    A dúvida que fica é a seguinte: por que tanta crítica à inserção do ballet na DV hoje em dia? Só por que as bailarinas de hoje não são Reda? Pessoalmente, depois de ver o trabalho do "bom velhinho", e presenciar tantos louvores tecidos ao mesmo, não vejo sentido algum nessa excessiva restrição às bellydancers da atualidade.
    O próprio ballet clássico, desde seus primórdios, vem evoluindo e incorporando influências de todos os lugares e épocas por onde ele passa. Assim se faz a evolução!

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  5. Oi Carol!!!!!!!!

    Concordo com você. Eu mesma critico pra caramba essa inserção excessiva do ballet na dança atual.

    Mas defendo os "dois pesos e duas medidas" que usamos com Reda, porque em minha pesquisa vejo Reda utilizando o ballet única e exclusivamente para tornar a dança oriental mais "aceitável" para os críticos da época que acreditavam que dança do ventre não era para palco, era uma dança unicamente popular.

    Aqui apresentei dois videos, mas tem vários outros na NET de danças folclóricas como Hagalla, Melaya Laff, Saiidi, com inserções de giros, arabesques e trabalho de braços balléticos que não parecem escandalosos pra mim. Reda tira o que o ballet tem de melhor: os desenhos cênicos, a estrutura do grupo, os trabalhos de braços, mas não descaracteriza a dança de seu país.

    A leitura tem ballet mas não é unicamente ballética, entende? (putz, acho que fui um tanto prolixa demais, ehehhe).

    É diferente, por exemplo, de uma Saida que pega uma música baladi até as orelhas (não importa se ela foi composta pelo Mario Kirlis, New Baladi tem a estrutura completa de um genuíno Baladi) e encher de chutes, arabesques e contratempos balléticos. Me soa escandaloso entendeu? Posso estar errada e ser quadradona? Totalmente!

    Mas por ser a Saida uma bailarina de nível altíssimo, vai muita gente no embalo, ao invés de estudar ritmos, tipos de música, folclore. Daí vemos essas inserções de ballet banalizadas que, ao invés de embelezar a dança, a descaracterizam totalmente.

    Vixe que comentário longo!!!!

    Mas não é agressivo não hein Carol não vai me entender mal, que cê sabe que eu te adoro hein!!!

    Beijosssss...

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  6. Bem, eu sou suspeita p/ falar porque eu sou fã da Saida. Mas entendi o que vc quer dizer, Vera!
    Por outro lado, me lembrei de minha professora de sábado, que prestou a KK este ano, contando um episódio: em um dos intervalos das apresentações à banca, Jorge Sabongi deu uma "bronquinha" branca, alertando as pré-selecionadas a tomarem cuidado, porque estava rolando muita imitação da Saida ali naquele dia.
    De fato, não sou a favor de imitar uma estrela-bellydancer, independente do quão criativa ela seja, nem o quanto eu sou fã dela. No meu ponto de vista (de ex-bailarina-clássica-sonhando-em-voltar-à-sapatilha-de-ponta-someday rsrs!), acho uma boa sacada o jeito impactante da argentina de mesclar DV, ballet e às vezes alguma coisa de tango.
    Mas enfim, ela é ela, e inspirar-se é bem diferente de copiar, né!
    Lembra daquela russa sobre a qual vc postou aqui, e na qual eu disse me inspirar muito? Pois então, acho que ali está um excelente uso do ballet na DV, pois essa menina tem um quadril poderoso, aliado a giros e movimentos de palco impecáveis e bastante originais!

    Big =************* e Feliz Ano Novo p/ vc, com muita dança!!!!!!

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  7. good dancing, good production. I like the way you teach and train children!

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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