23 outubro 2010

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O poder do olhar de quem assiste


Há 12 anos atrás, quando eu ainda freqüentava a igreja evangélica, eu conheci um rapaz que era seminarista de música. Nosso convívio era o mais próximo possível, porque eu era ministra de louvor e ele tocava piano. Claro que não vem ao caso que me apaixonei por ele, afinal, o fascínio que os músicos exercem nas mulheres é algo que não precisa de maiores explicações. Mas houve um dia na nossa história que ficou marcado para sempre na minha memória: o poder da troca de olhares entre o artista e o expectador.


Era um dia em que passamos a tarde inteira colecionando afinidades. Falamos de nosso amor pela música (100% match – amamos Debussy e Vivaldi), pelo futebol, pela tecnologia... muitas afinidades. Antes de começar a ministração na igreja, ele sempre tocava uma música, e eu ficava sentada na primeira fila. Daí ele começou a tocar “Desejo” da Banda Kadosh:

Eu queria tanto prazer, algum dia tudo fazer
Sonhos realizar, ser o que eu sempre quis
Meus desejos satisfazer , folha em branco me preencher
Sentir que mesmo assim gosto de ser quem sou
Ainda tem razão, motivos pra viver
Tem quem me ame assim sem nada exigir
Só porque eu nasci estou aqui ...

Eu queria me envolver mas fugia medo de ser
Livre só pra fazer tudo que eu sempre quis.
Mesmo incerto me expressar meus segredos, desabafar
Perto, junto de alguém, mais do só ficar.
********
Ele tocou a música toda sem olhar para a partitura, olhando apenas nos meus olhos. E aquele olhar aquecia todos os cantinhos da minha alma, e tudo o que eu podia fazer era retribuir aquele olhar. Era um momento mágico entre nós dois, e embora nunca tenhamos consumado nenhum tipo de relação afetiva, esse foi um dos momentos mais sensuais da minha vida. E alguns anos depois, nós dois já casados e estabelecidos, fiquei sabendo que esse momento o marcou também.


Transportando para a realidade da dança, enquanto bailarinas, poucas vezes temos a oportunidade de “trocar” com quem assiste, afinal, somos ensinadas "desde cedo" a evitar os olhares e a não direcionar o olhar para alguém fixo na platéia. Isso é bom: nos protege da fúria de mulheres enlouquecidas, eheheh... De outro lado, é ruim porque estamos sempre atentas a todos na platéia, e observamos expressões boas e ruins.

Eu não sei vocês, mas não sei lidar com os olhares de desaprovação. Se eu estou dançando, e vejo que quem está assistindo não está gostando, automaticamente se cria em mim uma ansiedade louca que a música acabe e eu saia correndo o mais rápido possível dali. Fico desconcertada e perco a noção do espaço. Não tenho desprendimento NENHUM neste caso – fico morrendo de vontade de me enterrar.

Dizem que existe uma técnica "KPV" para neutralizar esse tipo de olhar. Ah, vc não sabe o que significa KPV? Calma habiba, eu explico: é a técnica KOO PRA VOCÊ, onde a bailarina fica de costas para o chato de plantão e faz um shimmie bem exagerado. Porque ninguém pode ignorar o poder tranformador de uma bunda né gente, afinal, somos todos brasileiros.

Brincadeiras à parte, eu acho importante também nos educarmos como público - e fazermos nossa parte em "educar" quem nos cerca e assiste a outras bailarinas. Olhares de desaprovação para quem está dançando são uó. Posso não gostar da dança? LÓOOGICO! Mas, em respeito ao esforço daquela pessoa, posso também me controlar e deixar minha insatisfação para depois. Afinal, qual é o custo de um sorriso? Ah, nenhum, eu já sabia.

Agora, o olhar "do bem", de aprovação, de admiração: retribua!!! Troque com seu público amiga, os resultados são maravilhosos. Quer homenagear alguém no palco, na roda? Mande beijo, aponte o coração, faça a pessoa se sentir especial. Afinal, somos artistas porque há quem goste do nosso trabalho. E já dizia a sapiencíssima:

"Uma professora e bailarina não é absolutamente NADA sem seu público". (Lulu Sabongi)

Beijão

Ah, e só para lembrar: amanhã tem o workshop de maquiagem!!!!!!!!!! Já fez sua inscrição? Não? Vai lá amiga, não perde não! Vai ser uma tarde maravilhosa, vou ensinar vários truques, o material de aula ficou maravilhoso!


5 comentários:

  1. Adorei o post, Verinha!
    Eu tb me pelo desses olhares de desaprovação. Fico catando um olhar amoroso aonde me segurar...
    Beijos!

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  2. Querida, vc tocou na ferida, uma vez, há uns 10 anos atrás, meu grupo de dança apresentou-se num local onde haviam várias outras bailarinas... eu era iniciante e seria meu primeiro solo... então ao direcionar o olha pra uma outra bailarina... a "professora", (quem eu nunca mais esbarrei por aí), perguntou (aliás gritou)pra colega ao lado, ..."Que que é isso???" Nem precisa dizer que meu mundo caiu né?
    Nossa foi o pior dia da minha vida bellydancer... Meu, vou pegar uma carona no seu post! Valeu me lembrar disso!
    Muitos beijos!

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  3. Me identifiquei com o que sente...é muito difícil ser indiferente aos olhares.
    Já me senti linda e a pior das criaturas através dos olhares encaminhados a mim, rs
    bjos

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  4. Bom, nem toda "dança" orienta a não se olhar para o público. Sejamos realistas, isso só acontece na dança do ventre. Em outras modalidades, ao contrário, vc é orientado à buscar o público na platéia, se for sua vontade ou uma necessidade da coreografia... ou a dançar centrada em vc, ou olhando paar o horizonte, que seja (depende da intenção do que se quer passar com aquela dança). Mas ok... isso de evitar o público na dv está mais relacionado à preconceitos do que a conceitos de dança.
    Agora, para enfrentar olhares desaprovadores, eu me valho de uma coisa muito simples: estou em cima do palco para me divertir em primeiro lugar - e depois para entreter o público. Há quem goste e há quem não goste de nossa performance. Então, quando vejo um olhar reprovador, busco logo os olhares dos que estão ali curtindo e danço para aquelas pessoas. E fim! Quem não gostou que se dane! Nunca vamos agradar à gregos e troianos, não é mesmo?

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  5. ai que post mais apaixonado...adorei!! o olhar do outro sempre tem muito poder sim e eu duvido que alguem não se intimide perante um olhar de reprovação, ao menos por um instante! mas isso tbm é aprendizado, não se deixar abater... sucesso amanhã no work!
    :)

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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