28 fevereiro 2010

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Oito ou oitocentos: os sentimentalismos da dança

 
Ilustração de Valery Kosorukov


"Desilusão, desilusão...
Danço eu, dança você, na dança da solidão." (Marisa Monte)

Olá habibas!!

Nos últimos dias tenho refletido no fato de que várias pessoas queridas e hiper competentes no meio de dança do ventre têm optado por seguir outros projetos ao invés de dar prosseguimento em suas carreiras de bailarinas.

Em um âmbito mais “aluna” e menos profissional, vejo também diversas mocinhas talentosas pra caramba desistirem depois de serem barradas por algum obstáculo, que pode ser desde uma pré seleção, por exemplo, a uma opinião torta de uma professora tirana.

Eu me pergunto: por que? Por que potencializamos na dança sentimentos que na nossa vida pessoal podem ser chamados até de corriqueiros?

Não me refiro neste ponto às profissas que optaram por seguir outro caminho. Quando usamos o termo “profissional”, devemos associar a ele diversos elementos que nem sempre combinam com a arte tais como “equilíbrio financeiro” e “realização material”. Convenhamos que, em um meio onde quem copia uma coreografia do youtube se sente no direito de dar workshops relacionados ao tema da coreografia, “equilíbrio financeiro” não é um termo muito cotidiano. Mas, em contrapartida, fica em meu coração marcada e em minha garganta engasgada a pergunta: se continuar assim, onde nós, amantes da dança do ventre, admiradora das grandes bailarinas, onde vamos parar?

Também fico indignada com as situações que levam as admiradoras da dança a repensar sua dedicação à mesma. Seleções “viciadas”, concursos com jurados de técnica obscura, senão duvidosa, avaliações sem critérios firmes e, acima de tudo, claros! Daí a colega que estudou “pá carai” mostra todo o seu talento no palco, é aplaudida e admirada, porém ao receber a folhinha e avaliação no final do evento chega a pensar em “largar a lantejoula” diante dos comentários que beiram a grosseria dos jurados de dança do ventre no Brasil.

Quero chamá-las, habibas queridas, à razão. É, o meio de dança do ventre é podre mesmo, cheio de egos, vaidades, de um povo “cagador de regras” e ao mesmo tempo de um povo que está “cagando para as regras”.

Mas, se você parar para pensar com uma boa isenção, será que é só a dança do ventre que é assim? Pô, eu chego todos os dias ao trabalho com um vidrinho de soro antiofídico, porque ao meu redor transitam muitas cobras venenosas e é preciso ter cuidado. Mas, mesmo com medo das cobras e chateada com certas regras, mesmo com superiores de “qualidade duvidosa”, mesmo com colegas que não são colegas, mesmo quando eu realizo um trabalho “Du carái” e recebo um feedback negativo, mesmo assim eu acordo todas as manhãs, coloco o salto alto e a máscara para cílios e vou toda sorridente travar minha luta diária.

Isso sem contar a família, talvez algumas ao ler este trecho o identifique com seu próprio meio familiar, isso sem contar as “amizades”... e em todas as situações, usamos o máximo do nosso jogo de cintura para nos virarmos o melhor possível.

Falando um pouco de dinheiro, quantas vezes você não abriu o jornal de empregos e pensou “Pôxa meu, 4 anos de faculdade, um monte de dinheiro gasto, para as empresas oferecerem salários de 500 reais”. Eu mesma me pego nessa situação todos os domingos quando dou uma olhadinha. E, olha que situação chata, ninguém pára e escreve num blog que uma pessoa faz 4 anos de faculdade e mais um tanto de curso de inglês, isso sem contar sua experiência pessoal, e quando vai procurar emprego, a oferta é por salários de fome. Mais ainda, ninguém condena quem pega o emprego.

Mas já a dança... na dança não damos desculpas, na dança não engolimos sapos e na dança não somos razoáveis. É oito ou é oitocentos. Tanto em relação ao ego, quanto em relação às pedras do caminho.

O que eu queria partilhar com vocês hoje habibas, é que, acima de tudo, lidamos com pessoas o tempo inteiro. Ao dançar somos o encantamento, mas ao descer do palco, temos que reconhecer que a dança é só mais uma profissão como tantas, e ao escolhê-la, você deverá conviver com as situações boas e ruins, com maus profissionais cobrando muito, com bons profissionais se sujeitando a ganhar cachês irrisórios, com contratantes tiranos mandando você perder a barriga porque cliente não gosta de gordurinhas, com tantas coisas... Mas, infelizmente nada que muita gente não enfrente diariamente, e, principalmente, nada que uma mulher não tire de letra. Faça você a diferença,e seja perseverante.

“Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia,
Como os dedos na viola contemplando a lua cheia,
Apesar de tudo existe uma fonte de água pura (a dança, a paixão, a arte),
Quem beber daquela água, não terá mais amargura.”
(Marisa Monte)

Um beijo e boa semana!!!

7 comentários:

  1. Veroca, aqui vai meu depoimento: por mais que o meio seja hóstil, eu fiz uma escolha de viver através de valores inegociáveis como verdade, justiça, por exemplo. Tento traçar em minha vida um caminho que me ajude a evoluir enquanto pessoa, seja no trabalho, nas relações familiares ou na dança. Encaro as dificuldades como uma possibilidade de crescimento. Mas tudo tem um porém. A dança é uma opção a mais pra ser feliz. Não escolhi viver financeiramente dela. Se é uma opção para ser feliz, então pq vou insistir em algo que não tem atingido seu fim, seja pela malícia e crueldade do meio, seja pela desilusão com a própria dança? Nesse caso, não me parece coerente persistir. E é por isso que oje optei em me afastar do meio, do mitiêm do bloquinho do desgosto. Minhas aulinhas de cajú em cajú são mais do que suficientes para a manutenção da minha paz e saúde. Infelizmente muita coisa precisaria mudar, mas, nesse caso, uma andorinha só não faria verão, flor.

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  2. Verinha, respondendo sua pergunta "se continuar assim, onde nós, amantes da dança do ventre, admiradora das grandes bailarinas, onde vamos parar?", eu acho que vamos parar exatamente onde as cabeças que pensam param.
    Observar o que acontece no meio da dança, como se comportam as bailarinas que admiramos ou temos como exemplo de técnica, dedicação e conduta, é parte importante do amadurecimento de nossa arte.
    Nenhuma bailarina deve dar ao mercado ou a bancas avaliadoras o poder de influenciar tão negativamente em sua dança. Tá bom, tomou o baque inicial? "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima".
    Talvez "largar a lantejoula" seja parte do processo individual dessas bailarinas, talvez o problema não seja o meio, sejam elas, talvez nem mesmo haja um problema.
    Quando não estamos satisfeitos com um emprego trocamos, buscamos algo melhor não é? Com a dança não vejo pq precise ser diferente, se o cachê não tá bom, se a quantidade de alunas e aulas não paga as contas, pq ficar vivendo um idealismo quando não restam mais do que horas estressantes?
    Abandonar a dança como profissão não significa abandonar a arte, não dançar mais. Comigo tem sido assim e creio que talvez o seja com a maioria destas bailarinas a quem você se refere no texto.
    Das muitas bailarinas que conheci até hoje, nenhuma abandonou a dança. Ou "deram um tempo" para viver outras situações, ou migraram para outra arte de bailar ou, ainda continuam mantendo sua dança em um estado de conforto, onde há a prática sem o envolvimento apaixonado (muito comum nas bellydancers). Mas a sementinha da bailarina está ali, hora florescendo, hora esperando a geada passar.

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  3. Ai, menina, tenho tido pesadelos por causa disso, dessa falta de ética na dança do ventre. Ok, é um meio profissional, temos q engolir sapos, mas como meu marido veio me dizer: "Vc está fazendo por hobby ou por responsabilidade?". Eu não sei mais... Pra ser sincera, até mesmo pq nunca fui magra, eu jamais pensei em me "profissionalizar' na dança do ventre, mas dps q criei o blog, q era uma forma só de estar mentalmente de volta à dança do ventre dps de um período conturbado, parece q estou me cobrando mto mais. Domingo tenho uma apresentação com véu wing, q já fiz n vezes, mas agora estou panicando!! Eu sei q tem gente qdo me conhece pessoalmente torce o nariz, já tiveram dançarinas q vieram pra mim e disseram q eu não sabia dançar!! Eu q sou boba, acreditei e quase entrei em depressão, até um dia descontraído dançar com estas 'dançarinas" e ver q todos só gostaram de mim (pq falaram, eu não sou metida, heheh). Sabe, é mta gente q fala "linda" pra "amiga", mesmo q ela dance com uma perna de pau! Horrível! E "feia" pra "inimiga". É uma guerra de egos, eu não sei se tenho estômago pra aguentar... Snif snif

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  4. Posso resp0onder como alguém que abandonou a dança do ventre e não tem nenhuma pretensão de retornar ao meio. Pq? Pq a dança pra mim, além de profissão, é um amor incondicional. Seja qual dança for.

    Ainda acho a dança do ventre linda, rica e deliciosa de dançar. No entanto, uma hora a gente se farta de tantas regras, pré-conceitos, preconceitos e de tanta maldade (ok, temos isso em outros trabalhos tambem, mas em se tratando de dança, a dv é um dos piores meios - e posso falar isso com experiência, pois transito desde sempre por varias modalidades e nunca sofri ataques pessoais em outras danças... mas na dv a competitividade extrapola todos os limites).

    E tudo nesse meio é motivo pra críticas: se a pessoa é tradicional demais é criticada, se inova então, vixeeeeeee! Se segue o estilo da escola tal, lá vem pedrada, se tenta sair dos estilos renomados, mais pedrada... se tem opinião própria e diz o que pensa, é alvo das linguas ferinas. Se é condencendente e elogia a tudo e a todos, então é puxa saco e sem opinião própria!

    Parou por aí? Nãoooooooo. Eu poderia passar dias e noites aqui relatando mil motivos que me desiludiram nesse meio.

    Pra quem vive de dança, não só pela questão financeira, mas tambem por ser uma paixão, como é o meu caso, a gente vai aguentando, engolindo sapos, brigando pela classe, tentando fazer com que as coisas sejam mais amenas... mas é chover no molhado. O meio está viciado e há coisas instituidas que levariam anos para serem revertidas - e se fosse da vontade de uma grande maioria que isso se revertesse... sim, muitas querem um ambiente melhor pra trabalhar e conviver, mas poucas se arriscam a lutar por isso.

    Enfim... na hora que eu cansei de dar murro em ponta de faca, decidi que era a hora de me retirar. É aquela coisa: os incomodados que se mudem, né não? ^-^

    Continuo curtindo a dança, mas não me vejo mais enfiada num meio onde a guerra de egos e vaidades faz com que colegas se engulam, onde amizades se desfaçam, onde amizades deixem de surgir por conta de fofoquinhas desnecessárias.

    Como eu não tenho papas na lingua, sempre falei o que pensava, mas sempre aguentei o tranco do que vinha de volta por conta de expor minhas opiniões. Sempre batalhei pra ver esse meio se tornar mais agradavel, mesmo em meio às guerrinhas de nervos.

    Passei 16 anos da minha vida mergulhada na dança do ventre... 16 anos estudando, trabalhando nesse meio e vendo que com o passar dos anos nada mudava. Então, 16 anos mais velha, mais chata e mais razinza, cansei de sofrer.

    Dança é algo que deveria nos dar prazer. Viver de dança profissionalmente é uma dádiva que deveria nos fazer agradecer aos deuses diariamente por isso. Se a coisa não está sendo prazeirosa, algo está errado, n'est pas? E assim a gente acha outro rumo. Continuo vivendo de dança, mas agora sim posso dizer que estou feliz, não fico mais ouvindo fofoquinhas, não fico mais me preocupando pq fulana e clicana está metendo o pau no meu trabalho, não tenho mais que perder meu tempo explicando meus motivos pra fazer um trabalho fora das regras do certo e errado da dv, não preciso mais, inclusive, me preocupar se estou dentro ou fora dos padrões de mercado. Agora eu danço...muito! E danço leve, sem neuras, sem stress...

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  5. Meninas lindas!

    Eu estou super feliz com os comentários desse post. O fato da minha opinião ser diferente não apaga a minha admiração por vocês que colocam seus princípios na frente.
    Infelizmente a Lory tá certa: uma andorinha só não faz verão. Mas só em 2008 e 2009, se a gente observar bem, quantas andorinhas debandaram, já dava pra se unir, formar um grupo bão, e sei, lá, sonhar em mudar o meio de dança do ventre.

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  6. Verinha, eu acho que agora que as andorinhas debandaram, elas já estão de saco cheio da dv... hehehehe... duvido muito que ainda teriam paciência e empenho pra se juntarem e fazerem algo em prol desse meio, viu?

    Mas não perca as esperanças... vai que algumas delas resolvem se empenhar no caso? Ou ainda mais: vai que essa debandada serve de exemplo pras que ficaram e elas passam a se movimentar mais, fazendo entre elas algo novo e que venha a trazer bons benefícios aos meio, né?

    Boa sorte pra vcs que ficam, meninas! ^-^

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Mentes que pensam e fazem os outros pensar!!! Muito obrigada pelos seus comentários.

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